Por Marco Severini — Dois anos depois da morte de Aleksej Navalny, o campo da oposição russa permanece marcado por um vácuo de liderança e por uma tectônica de poder que favorece a continuidade do regime de Moscou. A morte de Navalny não apenas silenciou uma voz singular; ela desnudou alicerces frágeis da dissidência doméstica e redesenhou fronteiras invisíveis entre os que permaneceram na Rússia e os que foram forçados ao exílio.
Há três fatores estruturais que explicam por que é tão difícil emergir um herdeiro com capacidade de liderança comparável. Primeiro, a tradição da oposição extra-parlamentar russa é, historicamente, fragmentária: desde os anos 1990, grupos e lideranças se dispersaram por ambições pessoais, plataformas políticas heterogêneas e rivalidades que impedem coalizões eleitorais eficazes. Esse é um problema de arquitetura política — faltam alas coordenadas para construir um movimento capaz de superar barreiras institucionais, como a cláusula de quorum para entrada na Duma.
Segundo, a diáspora dos principais dissidentes — de Garry Kasparov a Mikhail Khodorkovsky, de Vladimir Kara-Murza a Liubov Sobol — converteu suas ações em ecos externos que, embora relevantes, sofrem erosão de legitimidade perante o eleitorado local. A presença física fora do país limita tanto a capacidade de mobilização quanto a percepção pública de pertencimento: o Kremlin explora essa distância para desacreditá-los como uma “oposição de gabinete” ou “bolha ocidental”.
Terceiro, os candidatos que tentaram ocupar o espaço deixado por Navalny enfrentam obstáculos tanto institucionais quanto narrativos. O caso de Boris Nadezhdin, impedido de concorrer em 2024 por formalidades da Comissão Eleitoral, ilustra o dilema: além da repressão burocrática, há o problema da percepção pública — muitos consideram certos opositores “fabricados” ou insuficientemente consistentes em seu percurso dissidente para inspirar confiança no eleitorado anti-Kremlin.
Navalny combinava várias qualidades raras: carisma, domínio jurídico, capacidade de investigação anticorrupção com sua Fundação, e um uso estratégico das redes sociais que expunha vulnerabilidades de oligarcas e quadros estatais. Esse conjunto funcionava como uma peça única no tabuleiro; replicá-lo exige mais do que talento individual, exige uma arquitetura institucional de resistência que hoje é esmagada pela repressão.
No interior da Rússia, a contestação que permanece é episódica — manifestações locais, gestos individuais, protestos esparsos — mas não alcança a densidade coletiva necessária para alterar o equilíbrio. Fora das fronteiras, a oposição em exílio mantém relevância simbólica e contribui para preservar memória política e redes de apoio internacional. Contudo, corre o risco de se tornar cada vez mais desconectada das dinâmicas sociais russas, se não fizer uma ponte crível com comunidades e atores dentro do país.
Em última análise, a morte de Navalny expõe a fragilidade dos mecanismos de sucessão política na oposição russa. Sem uma estratégia de recomposição que una atores dispersos, reconstitua canais de comunicação confiáveis e minimize o estigma do exílio, o espaço antissistema permanecerá como um conjunto de ilhas no arquipélago político da Rússia contemporânea. Como num jogo de xadrez de larga escala, a próxima jogada decisiva depende menos de um lance espetacular e mais da capacidade de reconstruir peças e alinhamentos sob pressão constante.






















