Por Marco Severini — A Comissão Europeia anunciou em Estrasburgo o lançamento de uma iniciativa destinada a estruturar a resposta da UE às ameaças emergentes dos sistemas aéreos não tripulados. No centro do plano de ação está a constituição de uma aliança dos drones que prevê a cooperação direta com a Ucrânia, visando reunir fabricantes, start-ups e inovadores para aproveitar a experiência operacional e a base industrial de Kiev.
O anúncio formaliza uma etapa já prevista na tabela de marcha sobre a defesa europeia: transformar know‑how e lições aprendidas em capacidades industriais e operacionais conjuntas. Segundo o documento adotado em Estrasburgo, a aliança deve fomentar a criação de joint ventures e parcerias público‑privadas entre empresas europeias e ucranianas, articulando um conselho de administração que coordene ações com os Estados‑membros e os representantes da indústria.
Do meu ponto de vista estratégico, trata‑se de um movimento de reposicionamento dos alicerces da diplomacia técnica: não apenas um esforço defensivo, mas um redesenho das cadeias de valor e dos corredores de influência tecnológica. A experiência adquirida nos teatros de operação onde drones foram decisivos confere a Kiev um capital de conhecimento que Bruxelas pretende institucionalizar e industrializar.
Em paralelo à integração industrial, a Comissão anunciou medidas operacionais e normativas. O comissário para os Assuntos Internos e Migração, Magnus Brunner, deixou claro que serão definidos «orientamentos claros a nível de União Europeia» para mitigar riscos associados aos drones, com aplicação obrigatória em todos os Estados‑membros. Entre as propostas mais concretas está a introdução de zonas de não sobrevoo em locais sensíveis, por meio de mecanismos de geo-fencing — a imposição técnica de limites de voo baseada em coordenadas GPS e controles de software.
Brunner sublinhou que a União não pode mais subsistir na letargia diante de ameaças rapidamente evolutivas: «Fomos frequentemente lentos e surpreendidos por esta nova forma de ameaça», disse, defendendo agora uma postura coordenada para transformar os drones também em vantagem estratégica, dado que tecnologia e recursos existem na Europa.
Do ponto de vista geopolítico, a oferta de parceria industrial com a Ucrânia deve ser lida como uma jogada de longo prazo no tabuleiro europeu — uma tentativa de consolidar uma aliança tecnológica e militar que fortaleça a resiliência coletiva e redesenhe, discretamente, linhas de influência industriais no continente. A criação de um conselho para coordenar indústria e Estados‑membros funcionará como peça central para que essa tectônica de poder não gere descompassos nem duplicidades nas respostas nacionais.
Em suma, a iniciativa mistura diplomacia industrial, segurança operacional e normatização técnica. A eficácia dependerá da rapidez de implementação das medidas propostas e da capacidade de traduzir parcerias em produção tangível e controles confiáveis — sobretudo nas fronteiras invisíveis do espaço aéreo, onde o controlo do espaço baixa do abstrato para o concreto.






















