Por Marco Severini — Desde a invasão russa quase quatro anos atrás, a possibilidade de eleições na Ucrânia tem sido tratada como um lance estratégico no tabuleiro diplomático: pedida tanto pelo Kremlin quanto, mais recentemente, pela Casa Branca, como elemento de um eventual acordo de paz. No entanto, convocar e realizar uma consulta popular em plena conflagração envolve uma série de obstáculos práticos e de legitimidade que transcendem o calendário eleitoral.
Fontes citadas pelo Financial Times indicam que Kiev estaria avaliando a hipótese de antecipar as presidenciais nos próximos três meses. Para que isso ocorra, todavia, é preciso superar entraves legais, logísticos e de segurança. Em primeiro lugar, a lei marcial vigente desde fevereiro de 2022 proíbe a realização de eleições. O presidente Volodymyr Zelensky condicionou repetidamente a convocação a um acordo de paz, embora tenha sinalizado recentemente abertura para antecipar pleitos como parte de um plano americano para encerrar a guerra. Ainda assim, Kiev criou no ano passado um grupo de trabalho — formado por políticos e oficiais militares — para estudar procedimentos pós-revogação da lei marcial.
Na prática, existem limites quase intransponíveis: segundo dados das Nações Unidas, milhões de ucranianos estão deslocados internamente ou vivem como refugiados no exterior; centenas de milhares de militares permanecem mobilizados ao longo da linha de frente; e cerca de 20% do território nacional segue sob controle russo. Garantir o direito ao voto nessas condições — atualizar listas eleitorais, estabelecer seções seguras, permitir a presença de observadores internacionais e assegurar meios para que militares e expatriados votem — representa um desafio organizacional sem precedentes na Europa contemporânea.
Olha Aivazovska, presidente do conselho diretivo da organização Opora, especializada em monitoramento eleitoral, disse ao FT que “seis meses de preparação para eleições não são o ideal, são o mínimo”. Sem um cessar-fogo verificável, alertou, as urnas e os pontos de votação ficarão expostos a riscos concretos: “É uma situação completamente sem precedentes”. A questão não é apenas técnica; é também de credibilidade. Eleições realizadas sob condições de insegurança podem sofrer contestação interna e externa, fragilizando os alicerces da diplomacia ucraniana.
Funcionários ucranianos destacam que o principal obstáculo são os próprios combates: bombardeios rotineiros ao longo de uma frente extensa tornam insegura a logística de urnas e fiscais. Além disso, milhões fora do país e milhões vivendo sob ocupação não teriam acesso ao sufrágio. Não está claro, por exemplo, como dezenas ou centenas de milhares de soldados poderiam votar enquanto permanecem posicionados na linha de frente, nem como restaurar a autoridade administrativa em áreas atualmente ocupadas para permitir votações legítimas.
Há implicações geopolíticas óbvias. Um pleito apressado, sem garantias amplas, poderia ser instrumentalizado por atores externos como argumento para deslegitimar Kiev — ou, inversamente, usado por Kiev como um movimento político para consolidar posição interna antes de concessões territoriais. O presidente Zelensky tem deixado claro que qualquer acordo que implique cessão de território deveria ser submetido a referendo. Contudo, existe um amplo consenso nacional de que nem referendos nem eleições podem ocorrer sob a vigência da lei marcial.
Do ponto de vista administrativo, várias soluções técnicas vêm sendo discutidas: votos móveis para militares, urnas especiais para deslocados, mecanismos de votação no exterior e até propostas de registro eletrônico. Todas, porém, exigem garantias de segurança, infraestrutura e tempo — recursos escassos em um teatro de operações. No plano estratégico, exigir um cessar-fogo e garantias internacionais antes de um pleito é também uma forma de preservar a legitimidade do resultado e evitar o risco de um plebiscito parcial que redesenharia, de fato, fronteiras invisíveis.
Em síntese, a realização de eleições na Ucrânia, hoje, é mais que um ato administrativo: é um movimento decisivo no grande tabuleiro regional. Sem a construção de alicerces de segurança, a restauração da administração civil nas áreas libertadas e um mecanismo inclusivo para os refugiados e militares, qualquer pleito corre o risco não apenas de falhar logisticamente, mas de minar a estabilidade política que se pretende obter. A prioridade, em termos realistas de geopolítica, permanece a criação de condições verificáveis que garantam que a vontade popular possa ser expressa de forma plena e incontestável.






















