Uma noite de ataques transformou-se em mais um movimento de alto risco no tabuleiro europeu. A Rússia reivindicou raids contra Kiev que, segundo Moscou, atingiram 20 edifícios, provocando ao menos 4 mortos e 19 feridos, além do lançamento de um míssil hipersônico Oreshnik na região de Lviv. Para o Kremlin, trata‑se de uma resposta ao alegado ataque de forças ucranianas à residência de Putin na região de Novgorod, ocorrido na noite de 29 de dezembro de 2025.
Na leitura diplomática ucraniana, o episódio não é apenas uma retaliação bilateral, mas um sinal de alerta para a segurança europeia e atlântica. O ministro das Relações Exteriores da Ucrânia, Andrii Sybiha, afirmou que um ataque desse tipo próximo às fronteiras da União Europeia e da OTAN representa “uma grave ameaça para a segurança do continente” e um “teste para a comunidade transatlântica”. Em suas palavras: é necessário que venham “respostas fortes às ações inconsequentes da Rússia”.
No plano militar, o Kremlin anunciou também a tomada da localidade de Zelenoye, na região de Zaporizhzhia. Em paralelo, Kiev denunciou a intensidade dos ataques noturnos: 36 mísseis e 242 drones, conforme o Estado‑Maior ucraniano. A defesa aérea de Volodymyr Zelensky relata ter abatido 226 drones e 18 mísseis — números que ilustram tanto a resistência quanto o desgaste das camadas defensivas civis e militares.
Na capital, a situação humana é grave e exige medidas práticas imediatas. O prefeito Vitaliy Klitschko recomendou que moradores que tenham condições saiam temporariamente da cidade para locais com fontes alternativas de energia e aquecimento. Segundo Klitschko, cerca da metade dos condomínios de Kiev — quase 6 mil edifícios — está sem aquecimento devido aos danos às infraestruturas críticas; o abastecimento de água da cidade também se encontra interrompido. Essa combinação de cortes simultâneos em energia e abastecimento configura um colapso parcial dos alicerces urbanos, facilitando o impacto humanitário das operações militares.
No plano diplomático exterior, a tensão reverbera em vozes de influência. Em entrevista ao New York Times, Donald Trump declarou estar disposto a participar de um esquema de garantias de segurança, porém apenas em papel “secundário”. Para Trump, Putin não teria intenção de retomar ataques se houver um acordo de paz — uma leitura que mistura intenção declarada e aposta estratégica, e que exige leitura crítica por parte dos atores europeus.
O apelo institucional mais elevado veio do Vaticano: o Papa Leão XIV pediu um cessar‑fogo imediato e um diálogo genuíno em prol da paz, reiterando a disponibilidade da Santa Sé de apoiar iniciativas diplomáticas. É um chamado aos atores para que retirem suas peças do confronto e busquem um rearranjo das condições políticas antes que a tectônica do conflito redesenhe fronteiras invisíveis.
Além dos danos humanos e materiais, o presidente Zelensky denunciou danos à Embaixada do Catar causados por um drone, lembrando o papel do Estado do Catar como mediador em trocas de prisioneiros e liberação de civis. Zelensky conclamou uma reação clara do mundo, em especial dos Estados Unidos, “que a Rússia realmente respeita”. É um pedido por sinais de custo político e estratégico, para que a diplomacia recupere espaço sobre a lógica da destruição.
Enquanto as forças se movimentam, permanecem as prioridades humanitárias: eletricidade, aquecimento, água e segurança civil. Do ponto de vista geopolítico, assistimos a um novo lance decisivo no tabuleiro — um teste que envolverá consequências além das linhas de frente e que desafia a comunidade transatlântica a consolidar respostas capazes de restaurar previsibilidade e limitar a escalada.





























