Por Marco Severini — Em um movimento que revela a fragilidade das linhas de abastecimento e a interdependência energética do continente, a Ucrânia, cujas centrais foram seriamente danificadas por bombardeios russos, segue dependendo de importações de eletricidade dos países vizinhos, segundo informou o operador de transmissão Ukrenergo.
Na origem do litígio está a decisão da Eslováquia de suspender fornecer eletricidade de emergência até que seja restabelecido o fluxo de petróleo pelo oleoduto Druzhba, que cruza a Ucrânia ligando a Rússia à Europa Central. O primeiro-ministro Robert Fico comunicou que o operador da rede eslovaca recusaria pedidos ucranianos de apoio até que o trânsito de crude fosse normalizado.
Trata-se de um movimento calculado: a interrupção do trânsito de petróleo, que afeta Eslováquia e Hungria, remonta a danos sofridos pelo oleoduto no mês passado, incidente que gerou acusações mútuas — Bratislava e Budapeste culpam a Ucrânia pela prolongada paralisação, enquanto Kiev aponta para um ataque com drone em 27 de janeiro.
Em resposta pública via Telegram, a Ukrenergo esclareceu que a eletricidade continua a ser importada de todos os países da UE que fazem fronteira com a Ucrânia e com a Moldávia, conforme os resultados das apostas para a distribuição da capacidade de interconexão disponível. Os próprios dados do operador eslovaco confirmam que os fluxos continuam em direção à capital ucraniana.
Ukrenergo minimizou, ainda, o impacto de um eventual recusa formal por parte da Eslováquia, lembrando que o último pedido de fornecimento de emergência ao país foi feito há mais de um mês e em volumes modestos. Em termos práticos, a Ucrânia obtém energia da UE tanto por contratos comerciais quanto por assistência de emergência, normalmente em quantidades limitadas e por períodos curtos.
Analistas da consultoria ExPro estimam que os fluxos comerciais vindos da Eslováquia e da Hungria representam cerca de 70% das importações energéticas totais da Ucrânia, um dado que sublinha a dimensão estratégica do binômio gasóleo/eletricidade na atual guerra e como ele pode ser instrumentalizado no tabuleiro geopolítico.
Bratislava diz que a restrição aos fornecimentos de emergência será suspensa assim que o trânsito via Druzhba for retomado. Apesar das alegações de Kiev sobre um ataque com drone em território ucraniano, a Eslováquia afirmou não possuir informações claras sobre a extensão dos danos. O ministro da Economia eslovaco afirmou, por sua vez, que o operador de oleodutos Transpetrol foi informado — sem mais explicações — de que o tráfego de petróleo deveria ser reestabelecido em 25 de fevereiro.
No plano diplomático e simbólico, o quarto aniversário da invasão atraiu a capital ucraniana a presença de várias lideranças europeias. Além da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e do presidente do Conselho Europeu, António Costa, desembarcaram em Kiev o presidente finlandês Alexander Stubb, a primeira-ministra dinamarquesa Mette Frederiksen e o primeiro-ministro sueco Ulf Kristersson, entre outros, recebidos pelo ministro dos Negócios Estrangeiros ucraniano Andrii Sybiha.
Em termos de estratégia, o episódio desenha um jogo de influências em que as linhas físicas de energia tornam-se peças móveis no tabuleiro: a dependência da Ucrânia de importações, a vulnerabilidade do oleoduto Druzhba e as decisões políticas de vizinhos europeus revelam um redesenho de fronteiras invisíveis, onde a tectônica de poder se manifesta em decisões técnicas e logísticas. A estabilização do abastecimento energético, mais do que uma questão técnica, é um movimento decisivo na arquitetura da paz e da resiliência durante a guerra.






















