Por Marco Severini — Em um movimento que altera delicadamente o tabuleiro regional, três desenvolvimentos distintos, mas conectados pela lógica da segurança e da diplomacia, marcam as últimas 24 horas.
Operação de contraespionagem na Turquia
Fontes da imprensa turca informam que o serviço de inteligência nacional, o MIT, prendeu dois suspeitos acusados de atuar como agentes do Mossad em Istambul. Segundo as informações divulgadas, a ação fez parte de uma operação complexa de contraespionagem batizada pelo código MONITUM. As autoridades turcas tratam o caso como uma operação de infiltração que exigiu coordenação técnica e trabalho de campo apurado — um exemplo clássico de quando a diplomacia cede espaço ao domínio da inteligência.
Acordo entre Líbano e Síria sobre transferência de detentos
Em Beirut, representantes do Líbano e da Síria rubricaram um acordo bilateral para regular o trânsito de condenados do país de condenação para o país de nacionalidade, permitindo que a pena residual seja cumprida na pátria dos sentenciados. A pauta, aprovada pelo Conselho de Ministros libanês em 30 de janeiro, traduz um pragmatismo institucional: resolver pendências humanitárias e administrativas que há muito tempo tensionavam as relações entre Beirut e Damasco.
O documento prevê explicitamente o retorno à Damasco de condenados sírios que cumprem pena em prisões libanesas. Segundo declarações do vice-primeiro-ministro libanês Tarek Mitri, o acordo permitirá a transferência de cerca de 300 detentos sírios que já cumpriram pelo menos dez anos de reclusão nas cadeias libanesas. A assinatura ocorreu em Beirut; o texto entra em vigor imediatamente, sem necessidade de ratificação parlamentar, e deve se tornar operacional 30 dias após a assinatura. As pastas da Justiça dos dois países serão responsáveis pela execução do pacto, que estabelece que os condenados não serão libertados, mas sim transferidos para completar a execução da pena em seu país de origem.
Gaza: ataques israelenses e questionamento da ONU sobre o cessar‑fogo
No teatro mais sensível do conflito atual, o Exército israelense (IDF) anunciou ter realizado ataques direcionados contra o que descreveu como uma “infraestrutura terrorista” na Faixa de Gaza, após forças israelenses terem sido alvo de disparos no norte da faixa, perto da chamada “Linha Amarela”. O IDF afirmou que nenhum soldado foi ferido e que a resposta foi em reação à violação do cessar‑fogo.
Entretanto, o cessar‑fogo — já por si frágil — mostra sinais de erosão: continuam ataques aéreos na Gaza meridional e equipes de resgate buscam sobreviventes sob escombros. O porta‑voz do Secretário‑Geral da ONU, Stéphane Dujarric, criticou com veemência os recentes ataques israelenses, questionando a eficácia e a própria natureza do cessar‑fogo que vem sendo implementado. Dujarric retomou as palavras do Secretário‑Geral António Guterres, no que pode ser lido como um alerta sobre os alicerces frágeis da diplomacia em curso.
Análise estratégica
São movimentos distintos numa mesma partitura geopolítica. A detenção em Istambul revela a persistência das operações clandestinas num ambiente urbano complexo; o acordo entre Líbano e Síria impulsiona um redesenho prático de fronteiras penais e de influência; e a continuidade de ataques em Gaza sublinha a instabilidade de um cessar‑fogo que mais parece um espaço intermediário do que um fim de hostilidades. Em termos de tectônica de poder, cada um desses episódios é um lance no tabuleiro onde Estados testam limites, consolidam posições e buscam reduzir riscos sistêmicos.
Como analista, observo que o conjunto aponta para uma fase de reequilíbrio: operações de inteligência são respondidas por medidas jurídicas e acordos bilaterais, enquanto conflitos armados continuam a exigir intervenções diplomáticas para evitar um colapso mais amplo. As peças se movem com cautela; resta saber se os alicerces desta nova configuração serão sólidos o bastante para resistir aos próximos choques.






















