A Casa Branca anunciou nesta semana duas decisões que reconfiguram a arquitetura internacional em torno de Gaza: a nomeação do general Jeffers como chefe da força internacional de segurança para a faixa de Gaza e o convite formal ao presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, para integrar o novo Board of Peace para Gaza.
Segundo nota divulgada pela presidência turca, o convite foi enviado pelo próprio presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que se apresenta como presidente fundador do Board of Peace. O comunicado turco informa que “no dia 16 de janeiro de 2026, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na qualidade de presidente fundador do Board of Peace, enviou uma carta convidando o nosso presidente Recep Tayyip Erdogan a tornar-se membro fundador do Board”. A informação foi publicada por Burhanettin Duran, diretor de comunicações da República Turca.
Também foi confirmado que o ministro das Relações Exteriores da Turquia, Hakan Fidan, integrará o conselho executivo do Conselho para a Paz, reforçando o papel turco nessa engrenagem diplomática que pretende coordenar a estabilização e a reconstrução de Gaza.
Em resposta às movimentações anunciadas pela administração americana, o líder da oposição israelense, Yair Lapid, criticou duramente o governo de Tel Aviv. Em publicação na plataforma X, Lapid afirmou que, ao não promover a solução egípcia conjunta com os Estados Unidos e a comunidade internacional, o governo acabou abrindo espaço para que a Turquia e o Catar tenham papéis centrais em Gaza — uma leitura que, segundo ele, expõe um “fracasso político completo” do governo Netanyahu, apesar do “heroísmo” e sacrifício das forças israelenses.
Paralelamente, a Casa Branca divulgou os nomes dos integrantes do novo "Conselho da Paz" proposto pela administração Trump para a gestão e reconstrução de Gaza. Entre os nomes anunciados estão figuras de destaque internacional: o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair, o líder empresarial Ajay Banga, o senador Marco Rubio e Jared Kushner, entre outros. O comitê executivo fundador será responsável por supervisionar o trabalho de um painel de tecnocratas encarregado da governança temporária e da reconstrução da Faixa de Gaza.
Cada membro do Board ficará com um portfólio considerado “essencial para a estabilização de Gaza”, segundo a Casa Branca. No entanto, ainda não foram atribuídas publicamente as responsabilidades específicas a cada integrante — um detalhe que mantém incertezas sobre a divisão de tarefas e a cadeia de comando dessa intervenção multinacional.
Alguns pontos já despertaram controvérsia: a lista inicial publicada não inclui mulheres, como notou a BBC, e a presença de Tony Blair — cuja liderança no Reino Unido incluiu a decisão de intervir no Iraque em 2003 — tende a ser vista por setores como um fator polarizador. Blair, que atuou anteriormente como enviado do Quarteto para o Oriente Médio, chegou a qualificar os planos de Trump como “a melhor possibilidade para encerrar dois anos de guerra, miséria e sofrimento”.
O nomeação do general Jeffers para comandar a força internacional sinaliza que a componente de segurança da iniciativa americana será liderada por um oficial de alta patente, com mandato para coordenar tropas internacionais destinadas a garantir a ordem durante a fase de transição. A natureza exata do contingente, mandatos de prisão, regras de engajamento e a relação com as forças locais permanecem, no entanto, pontos ainda por esclarecer.
Do ponto de vista político, essa movimentação representa um novo alicerce na tentativa de construir uma ponte entre nações e atores regionais que têm interesses conflitantes sobre Gaza. É uma obra em curso: o peso da caneta de quem assina convites e nomeações demonstra que, além das negociações de bastidor, a definição dos responsáveis pela gestão prática da reconstrução terá impacto direto na vida cotidiana dos moradores da Faixa de Gaza e na segurança regional.
Como correspondente atento às decisões de Roma, Washington e outros centros de poder, observo que a arquitetura do voto e da diplomacia está sendo reerguida peça por peça — e é essencial que as atribuições sejam claras, transparentes e sujeitas a mecanismos de prestação de contas. Sem isso, a “reconstrução” pode perder seu fundamento civil e tornar-se uma disputa de influência entre potências.
O que fica por esclarecer: as atribuições detalhadas de cada membro do Board of Peace, a composição completa da força comandada pelo general Jeffers, e como será feita a coordenação entre as autoridades locais, atores regionais e a equipe internacional de tecnocratas.






















