O presidente Donald Trump inaugurou um controverso fórum batizado de Board of Peace, reunindo cerca de uma vintena de assinaturas de líderes e representantes internacionais. O ato, de forte simbologia política, ocorre em um momento de altas tensões no Levante: avaliações internas nos Estados Unidos indicam a possibilidade de um recuo total das forças americanas da Síria, enquanto a trégua em Gaza permanece frágil e operações de segurança continuam na Cisjordânia.
Recalibração militar em Damasco: sinal de um novo tabuleiro
O Wall Street Journal informou que Washington avalia um retirada completa das tropas norte-americanas da Síria, onde atualmente estariam cerca de mil militares distribuídos no nordeste do país. A decisão está sendo ponderada após a iniciativa do presidente de transição sírio, Ahmed al Sharaa, de integrar a milícia curda apoiada pelos EUA — as Forças Democráticas da Síria (SDF) — às estruturas militares e de segurança do Estado.
Em 18 de janeiro, al Sharaa anunciou um acordo em 14 pontos com as SDF, com cessar-fogo imediato e a incorporação dos combatentes às forças estatais, além da transferência de cidades-chave como Raqqa e Deir Ezzor ao controle do governo e da gestão dos campos onde estão detidos suspeitos e familiares vinculados ao Estado Islâmico. No raciocínio do Pentágono, se as SDF deixarem de existir como entidade autônoma, a razão estratégica para manter tropas no terreno perde substância — um movimento que redesenha, em silêncio, um pedaço do tabuleiro geopolítico regional.
Reações europeias: Sánchez e a ênfase no multilateralismo
Entre as ausências destacadas à mesa do Board of Peace está o primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez, que declinou o convite de Trump. Sánchez justificou a recusa como uma escolha de coerência com o ordem multilateral, o sistema das Nações Unidas e o direito internacional, além de criticar a composição do conselho por não incluir a Autoridade Palestina. Trata-se de uma firme lembrança de que nem todas as peças relevantes aceitam ser movidas por iniciativas extrainstitucionais.
Segurança na Cisjordânia e pressões sobre a trégua
Enquanto isso, as Forças de Defesa de Israel (IDF) concluíram uma operação antiterrorismo de quatro dias em Hebron, na Cisjordânia, com a busca em cerca de 350 edifícios, 14 prisões de suspeitos e a apreensão de oito armas de fogo. A ação visa neutralizar infraestruturas terroristas e restaurar a segurança local, mas, no contexto da tregua em Gaza, tais operações funcionam como lembretes das fragilidades dos acordos e dos alicerces frágeis da diplomacia regional.
Itália e Polônia buscam entrada política
Segundo o próprio Trump, Itália e Polônia manifestaram interesse em aderir ao Board of Peace. A primeira-ministra Giorgia Meloni teria dito querer assinar, mas precisaria completar formalidades legislativas. Trump afirmou que havia “quase trinta pessoas” de países importantes no evento, e que outros governos tinham sinalizado vontade de se juntar ao fórum — movimentos de influência que evocam a logística de um lance de xadrez: rápidas declarações públicas, mas decisões que dependem de ratificações internas e de mapas institucionais.
Uma avaliação estratégica
O conjunto de eventos — da possível retirada americana da Síria, ao nascimento do Board of Peace, passando pela recusa de líderes europeus e pelas operações israelenses — ilustra uma tectônica de poder em processo de redesenho. Não se trata somente de gestos diplomáticos; são movimentos que reconstroem fronteiras invisíveis de influência, testam a resistência das instituições multilaterais e desafiam os mecanismos tradicionais de legitimidade.
Como em um jogo de alto nível, cada peça se move com uma finalidade: uns buscam consolidar espaço de manobra, outros preservam coerência normativa. A estabilidade regional dependerá da habilidade dos atores em transformar acordos de ocasião em alicerces duráveis — e isso exige mais do que assinaturas numa cerimônia.
Marco Severini é analista sênior em geopolítica e estratégia internacional para a Espresso Italia.





















