Por Marco Severini — Em mais um movimento de alto risco no tabuleiro da política internacional, o presidente Trump lançou uma advertência direta ao governo do Irã, afirmando que os EUA estão prontos a intervir caso as forças iranianas sigam matando manifestantes. A declaração, publicada na sua plataforma preferida, veio enquanto as mobilizações populares em Teerã e em outras cidades completam o quinto dia consecutivo e já registram, segundo a agência HRANA, ao menos sete mortos e dezenas de feridos.
As manifestações começaram como reação à deterioração econômica — desvalorização da moeda e aumento do custo de vida — e rapidamente assumiram contornos políticos, dirigindo-se contra o sistema teocrático e a figura da Guida Suprema, Ali Khamenei. O crescendo de violência nas ruas transformou uma crise socioeconômica em um teste direto de legitimidade do poder, com as forças de segurança empenhadas na contenção e, segundo relatos, no uso de força letal.
Em um post em sua rede, Trump afirmou que os Estados Unidos estão “locked and loaded” e prontos para intervir caso o Irã continue a matar manifestantes pacíficos. Foi uma mensagem deliberadamente dura, pensada como dissuasão: um movimento de grande impacto no tabuleiro, destinado a alterar cálculos de risco em Teerã e a oferecer um sinal de apoio — real ou simbólico — às frentes que desafiam o regime.
Teerã reagiu com igual veemência. Porta-vozes oficiais advertiram que Washington deve cuidar dos seus próprios soldados, insinuando que qualquer intervenção externa seria respondida. A troca de ameaças eleva perigosamente a escalada retórica entre duas potências com histórico de confronto indireto na região.
Do ponto de vista estratégico, estamos diante de uma dupla dinâmica: por um lado, a tectônica de poder americano busca preservar influência e capital político ao se posicionar como protetor de direitos civis; por outro, o regime iraniano procura reafirmar sua autoridade diante de fraturas internas, usando dispositivos legais e aparelhos de segurança para restaurar ordem. É uma arquitetura de tensão em que cada movimento altera a disposição de forças no mapa geopolítico do Golfo e do Levante.
Organizações de direitos humanos relatam operações de repressão concentradas, com prisões e uso de intimidação. O balanço provisório de mortos e feridos tende a crescer se as frentes permanecerem em choque. No plano regional, Israel e outras capitais observam com atenção, avaliando riscos e oportunidades de reequilíbrio.
Como analista com visão de tabuleiro, percebo que a ameaça explícita de intervenção funciona como um lance de alto risco: pode dissuadir uma escalada letal imediata, mas também pode consolidar narrativas internas no Irã que legitimem repressão como defesa da soberania. A alternativa diplomática — ampliação de canais multilaterais, pressão coordenada por meios não militares e oferta de rotas de saída política — permanece a mais prudente para reduzir a probabilidade de um choque direto.
Enquanto isso, nas ruas, a contestação social segue, e a sorte dos manifestantes pode depender tanto de decisões em Washington quanto de imperativos internos em Teerã. No grande tabuleiro da região, cada peça se move com consciência de riscos assimétricos; cada decisão pode redesenhar fronteiras invisíveis de influência.
Fonte: Il Giornale d’Italia — link original































