Por Marco Severini — Em um movimento que redefine, mais uma vez, a **tectônica de poder** sobre o solo ucraniano, o presidente Zelensky anunciou um balanço sombrio após reunião com governadores das regiões mais afetadas: a chamada trégua do gelo mostrou-se curta e frágil — durou apenas três dias.
A capital permanece sob forte pressão humanitária. Segundo dados oficiais, mais de 500 condomínios em Kiev seguem sem aquecimento em meio a uma onda de frio excepcional. “Os reparos continuam, mas não são suficientes”, afirmou o presidente, ressaltando que, independentemente dos ataques, centenas de edifícios permanecem sem calor diariamente. Na estratégia urbana, isso representa falhas nos alicerces logísticos e sociais da cidade.
O episódio mais grave ocorreu na região de Dnipropetrovsk: um drone russo atingiu um ônibus de linha no distrito de Pavlohrad (Pavlograd), com passageiros que, segundo apurações, eram mineiros retornando do turno. As autoridades regionais e a companhia energética DTEK confirmaram que 15 mineiros morreram e outros 7 ficaram feridos. A empresa qualificou o ataque como um “ato terrorista” e exigiu responsabilização.
Além do impacto humano direto, a campanha de ataques permanece orientada a centros logísticos e de transporte: houve relatos de danos à ferrovia na região de Dnipro e ataques a infraestruturas ferroviárias também em Konotop, na região de Sumy. Em Nikopol e Marhanets, rajadas de drones interromperam linhas elétricas, provocando cortes de energia que tensionam ainda mais a capacidade de resposta civil e industrial.
Enquanto a diplomacia trabalha nos bastidores — incluindo um cessar-fogo parcial mediado pelos Estados Unidos, voltado a proteger instalações energéticas e anunciado como válido ao menos até domingo — os combates e ataques seletivos prosseguem contra outros alvos. Na mesma região onde o ônibus foi atingido, a noite anterior já havia registrado a morte de dois civis, sublinhando a continuidade do risco para populações não combatentes.
O governo distribui cerca de 5.000 kits térmicos por dia na região de Kiev, um esforço paliativo diante da diminuição do conforto básico. Zelensky deixou claro que as regiões de Chernihiv, Kherson e Zaporizhzhia exigem respostas que combinam dimensões militar e diplomática, pois os danos ali comprometem a estabilidade regional e o desenho futuro das linhas de influência.
Do ponto de vista estratégico, este novo episódio evidencia a dinâmica de um tabuleiro em que corredores civis e infraestruturas críticas se tornaram peças vulneráveis. A “trégua do gelo”, concebida como um movimento tático para reduzir danos ao sistema energético durante a piora climática, revelou-se um acordo com alicerces frágeis, exploráveis por ataques direcionados que evitam, por ora, confrontos abertos em larga escala.
Para observadores de geopolítica, a sequência confirma um padrão: mesmo quando linhas de contenção são desenhadas por potências externas, a guerra continua a testar a resiliência das cidades e a capacidade dos governos de proteger vidas e manter serviços essenciais. A resposta ucraniana, tanto em termos de segurança quanto de diplomacia, seguirá sendo decisiva para a configuração do próximo movimento neste tabuleiro estratégico.





















