O primeiro acordo mediado pelos Estados Unidos entre as Forças Democráticas Sírias (SDF), de liderança curda, e as forças do governo de Damasco durou menos de 48 horas. Um segundo pacto foi anunciado em seguida, mas o ceticismo sobre a sua durabilidade parece justificado diante do comportamento das partes no terreno.
O acordo, anunciado no domingo passado, previa uma rápida “integração plena” da administração autônoma do Nordeste ao estado central — uma transição que colocaria fim, pelo menos formalmente, a catorze anos de controle local que chegou a abarcar quase 30% do território sírio. Essa região foi amplamente conhecida como Rojava — o Curdistão Ocidental — até que a sua natureza multietnica passou a ser oficialmente reconhecida, com inclusão de árabes e minorias como a siriaca e a yazidi.
Ao longo dos anos, o projeto local foi descrito em reportagens, livros e narrativas gráficas como um experimento social e político singular: o chamado Confederalismo Democrático, enunciado por Abdullah Öcalan e influenciado pelo municipalismo libertário de Murray Bookchin. A proposta institucionalizava assembleias populares em vários níveis, igualdade de gênero e uma atenção pronunciada à ecologia.
Para Ancara, contudo, os curdos do Rojava permaneceram sinônimo de ameaça — identificados com o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), com o qual a Turquia trava um conflito duradouro. Essa percepção traduziu-se em operações militares turcas que arrancaram territórios da administração autônoma e redesenharam, por ação bélica, linhas de influência no terreno.
Enquanto isso, um comandante de relevo do PKK declarou que “nunca abandonaremos os curdos sírios” — uma afirmação pronunciada num momento em que manifestações e confrontos atravessaram a fronteira: comunidades curdas na Turquia protestaram, queimaram algumas bandeiras turcas e houve choques com a polícia.
A trégua proclamada após dias de combates intensos chegou quando as SDF já haviam perdido pontos estratégicos: dois bairros curdos em Aleppo, uma extensa faixa a oeste do curso do Eufrates, a cidade e a barragem de Taqba, e, sobretudo, Raqqa, antiga capital de facto do autoproclamado Estado Islâmico.
Na prática, e sob o olhar das tropas norte-americanas estacionadas na área — oficialmente aliadas tanto do Executivo de Damasco quanto do Rojava — as forças governamentais mantiveram operações ofensivas com o objetivo de recuperar por completo os territórios que a administração autônoma controlava. O resultado prático desse contínuo ímpeto ofensivo é que, atualmente, os curdo-sirianos preservam essencialmente o controle do governadorado de Hasakah, no extremo nordeste, e da cidade de Kobane, símbolo da resistência contra o ISIS em 2014.
Do ponto de vista geopolítico, assistimos a um movimento decididamente estratégico: um redesenho de fronteiras invisíveis que não se resolve em termos puramente militares, mas que reconfigura alianças, influências e a própria arquitetura institucional da Síria pós-guerra. As tréguas se comportam como peças frágeis num tabuleiro em que cada movimento pressiona alicerces diplomáticos já desgastados.
Resta saber se o novo acordo, no papel mais um passo rumo à reintegração formal, encontrará sobre o terreno condições reais para sua implementação — ou se será apenas mais um interlúdio numa tectônica de poder que segue em reshaping, com atores externos e regionais testando limites e oportunidades.
Como analista, observo com cautela: a estabilidade duradoura exige garantias que não se fabricam apenas em declarações públicas, mas em desenhos concretos de segurança, administração local e um pacto mínimo de coexistência entre forças que até ontem duelavam pela soberania sobre o mesmo espaço.






















