Por Marco Severini — Em um movimento que redesenha discretamente o tabuleiro geopolítico no Levante, as Forças Democráticas Sírias (SDF), de predominância curda, e o governo de Damasco anunciaram hoje um acordo de normalização que prevê um cessar‑fogo e uma série de medidas destinadas à reintegração administrativa e civil do nordeste sírio.
O documento, lido como uma roadmap de recuperação do Estado sobre territórios fragmentados, tem como objetivo declarado “unificar o território sírio, fazer cumprir a lei e realizar uma integração completa na região através do fortalecimento da cooperação entre as partes e a unificação dos esforços para a reconstrução do país”. Em termos estratégicos, trata‑se de um movimento calculado, que tenta transformar fraturas abertas em novos alicerces institucionais.
O pacto promete reconhecer direitos civis para uma comunidade estimada em cerca de 2,5 milhões de pessoas, assegurar acesso à educação em língua curda e estabelecer garantias para um “retorno seguro” dos deslocados internos – demandas centrais há anos nas reivindicações das autoridades locais curdas.
Entre as cláusulas operacionais, destaca‑se o recuo das forças militares dos pontos de contato e a entrada das forças do Ministério do Interior sírio em centros urbanos até então considerados off‑limits, notadamente Hasakah e Qamishli, cidades que foram palco de confrontos intensos nas últimas décadas e que voltaram a registrar escaladas violentas em janeiro.
Fontes oficiais e a televisão estatal referem a criação de uma divisão militar integrada composta por três brigadas originadas nas forças SDF e uma quarta brigada com base em Kobane, que deverá responder às autoridades militares sírias estacionadas em Aleppo. O texto do acordo também foi assinado, segundo comunicados, por Ahmad Al‑Sharaa e pelo general Mazloum Abdi, e recebeu confirmação formal de Damasco.
É importante sublinhar a composição heterogênea das SDF: embora predominem unidades curdas — como a Unidade de Proteção Popular (YPG) e a Unidade de Proteção das Mulheres (YPJ) —, quase metade dos combatentes não é de origem curda, incluindo ex‑opositores sirianos e membros de tribos árabes com ligações políticas diversas.
O pano de fundo diplomático também merece leitura atenta: dois dias antes da assinatura do acordo, o presidente sírio Ahmad Al‑Sharaa reuniu‑se no Kremlin com Vladimir Putin para reafirmar a profundidade das relações entre Damasco e Moscou, e destacar o papel de Moscou na sustentação da unidade e estabilidade do país, segundo nota do palácio presidencial. Essa visita representa um movimento de sustentação externa essencial — a cartografia de influência russa no teatro sírio segue sendo um elemento de peso para a viabilidade do acordo.
Do ponto de vista da arquitetura de poder, o acordo procura transformar um cessar‑fogo frágil em um mecanismo institucional de médio prazo: integração das forças, reconhecimento de direitos culturais e retorno de serviços estatais constituem tentativas de reinstalar o monopólio estatal legítimo da força e da administração. Em termos geopolíticos, a movimentação reduz, ao menos temporariamente, a margem de manobra de atores externos que se beneficiavam da fragmentação do território.
Resta, contudo, a questão da implementação: a retirada efetiva das linhas de choque, a integração das brigadas federais e a garantia de segurança para os retornos dependem de confiança mútua e de mecanismos de verificação que, historicamente, têm sido frágeis. Se a diplomacia for a arquitetura, a execução será a engenharia delicada que definirá se este acordo será apenas uma pausa estratégica ou o início de uma normalização duradoura.
Em suma, estamos diante de um movimento que altera a tectônica de poder no nordeste da Síria — um lance ambicioso no tabuleiro, cuja solidez vai depender da convergência entre segurança, reconstrução e políticas de inclusão social.






















