Marco Severini — Em um movimento que reconfigura peças no tabuleiro geopolítico, Moscou propôs transferir as negociações sobre a crise ucraniana de Genebra para Abu Dhabi. A sugestão, reportada pela agência Tass com base em fonte confidencial, chega em meio a uma escalada de fricções que envolve também o Irã e acusações de ataques recentes atribuídos aos Estados Unidos e a Israel.
O anúncio russo coincide com um alerta formal: a embaixada da Rússia em Teerã recomendou aos seus cidadãos que deixem o país “caso tenham possibilidade”. O comunicado, replicado no canal do Ministério das Relações Exteriores russo no Telegram, pede que os russos residentes no Irã “mantenham a calma e não cedam ao pânico que alguns tentarão semear através dos meios de comunicação e redes sociais”.
Vozes de Moscou e o jogo da paciência
Em tom contundente e com o sabor de realpolitik que caracteriza suas intervenções, Dmitry Medvedev — ex-presidente e atual vice-secretário do Conselho de Segurança — criticou abertamente a postura dos EUA. No Telegram, escreveu que “o pacifista mostrou mais uma vez o seu verdadeiro rosto”, numa clara referência ao presidente dos Estados Unidos. Medvedev afirmou ainda que “todas as negociações com o Irã são uma operação de cobertura, ninguém tinha dúvida a esse respeito, ninguém queria realmente negociar algo específico”. Segundo ele, “a questão é quem tem mais paciência para esperar a desonrosa queda do inimigo. Os Estados Unidos têm apenas 249 anos. O Império Persa foi fundado há mais de 2.500 anos. Veremos em 100 anos”.
Fronteira oriental: ganhos russos e defesa aérea ativa
No terreno ucraniano, o Ministério da Defesa da Rússia informou a conquista de dois povoados: Neskuchnoe, na região de Kharkiv, e Gorkoe, na região de Zaporizhia. Paralelamente, as forças russas comunicaram que seus sistemas de defesa aérea abateram 97 drones ucranianos durante a noite sobre várias regiões do país. A distribuição apresentada pelo ministério foi: 40 sobre a Crimeia, 22 sobre a região de Bryansk, 16 sobre Belgorod, 10 sobre o Mar Negro, 4 sobre a região de Krasnodar, 2 sobre Kursk, 2 sobre Kaluga e 1 sobre Tula.
Incidente em Krasnodar e alcance das ações
O Kyiv Independent relatou que uma refinaria no vilarejo de Novominskaya, na região de Krasnodar, pegou fogo após um ataque com drone. Segundo o Comando Operacional, detritos provocaram o incêndio que atingiu um dos tanques e uma área adjacente de cerca de 150 metros quadrados. Não há registro de vítimas. A instalação atingida foi a mini-refinaria da Albashneft, localizada aproximadamente 250 quilômetros da linha de frente ucraniana — um dado que sublinha o alongamento do raio operacional dos ataques.
Abu Dhabi como novo palco de negociações: o que isso significa
De acordo com a Tass, a proposta russa de transferir as conversações para Abu Dhabi teria o apoio dos Estados Unidos. A fonte confidencial citada afirmou que “trazer as negociações a Abu Dhabi é, em grande medida, um desejo da Rússia; Zelensky apenas se apressou em torná-lo público, já que os americanos também concordavam. É como um canário: repete o que ouve”.
Do ponto de vista estratégico, a escolha de Abu Dhabi — um ator regional com capacidade diplomática e disposição para operar como plataforma neutra — representaria um redesenho das fronteiras invisíveis da diplomacia: um movimento que busca descolar o processo de influências europeias diretas, aproximando-o de um eixo do Golfo que pode oferecer garantias logísticas e de segurança distintas. Para atores como a Rússia, trata-se de reposicionar a negociação num terreno menos previsível para o Ocidente, ao passo que para os EUA pode significar uma busca por alternativas de mediação menos expostas à pressão doméstica e aliada.
Leitura estratégica
Na minha leitura, a proposta russa e os desenvolvimentos militares formam um conjunto coerente: enquanto se constrói vantagem tática no leste ucraniano — avançando em vilarejos e reforçando defesas contra drones —, Moscou procura alterar o cenário diplomático. É um movimento decisivo no tabuleiro; menos teatral que uma jogada isolada, mais parecido com o reposicionamento de peças que visa controlar a narrativa e a logística das conversas futuras. A recomendação da embaixada em Teerã e a retórica de figuras como Medvedev ampliam a tensão regional, transformando o xadrez geopolítico em um jogo de resistência de longo prazo entre eixos históricos de poder.
Seguiremos acompanhando os desdobramentos: cada nova proposta de venue, cada incêndio ou queda de drone, compõe um mapa dinâmico cuja leitura exige paciência e histórico — a arte da diplomacia como arquitetura da estabilidade.






















