Por Marco Severini, Espresso Italia
Em um movimento que redesenha, de forma cautelosa, parte do tabuleiro diplomático, o vice‑ministro das Relações Exteriores da Rússia, Mikhail Galuzin, afirmou que a introdução de uma governança externa na Ucrânia, sob a égide das Nações Unidas, é uma das opções possíveis para encerrar a guerra, desde que implementada após a conclusão da operação militar especial. A declaração foi feita em entrevista à TASS e traz à tona um conceito com precedentes históricos nas missões de manutenção da paz.
Galuzin recordou que a ideia não é inédita: o próprio presidente Vladimir Putin mencionou, em março de 2025, a possibilidade de instaurar uma administração externa em Kiev sob o manto da ONU. A proposta, tal como apresentada por Moscou, aparece menos como uma declaração incontornável do que como uma peça a ser negociada em mesas multilaterais: “A Rússia está pronta a discutir com os Estados Unidos, países europeus e outros a possibilidade de introduzir uma governança externa temporária em Kiev”, disse o vice‑chanceler.
Do ponto de vista histórico e jurídico, medidas desse tipo têm precedentes no âmbito das operações de paz da organização mundial, quando estruturas externas foram temporariamente encarregadas de administração local em situações excepcionais de pós‑conflito. No entanto, a implementação prática exige não apenas um mandato claro, mas também aceitação política ampla — uma condição que, no atual clima de tensões entre grandes potências, assemelha‑se a um lance complexo num final de partida: requer coordenação, garantias e um desenho institucional que preserve a soberania, ao mesmo tempo em que ofereça estabilidade.
Como analista, vejo a proposição russa como um movimento estratégico de dois níveis. No primeiro, projeta uma alternativa diplomática para a fase de pós‑conflito que pode atrair atores internacionais interessados em limitar um novo ciclo de violência. No segundo, testa a disposição de interlocutores ocidentais em aceitar formatos que poderiam reconfigurar, temporariamente, a autoridade sobre territórios sensíveis — um redesenho de fronteiras invisíveis, cujo custo político e operacional precisa ser mapeado cuidadosamente.
Para que uma governança da ONU seja operacional, seriam necessários mandatos robustos, mecanismos de transição e garantias de segurança para as populações locais, além de um consenso mínimo entre os membros permanentes do Conselho de Segurança, cujo veto constitui o nó gordiano de qualquer iniciativa multilateral. A proposta russa, portanto, coloca em evidência a fragilidade dos alicerces da diplomacia contemporânea: é ao mesmo tempo oferta e teste — um convite a negociar, mas também um desafio à arquitetura institucional que regerá o pós‑conflito.
O debate futuro deverá envolver não só Washington e capitais europeias, mas também atores regionais e organismos multilaterais, que terão de pesar precedentes, riscos e benefícios. Em termos estratégicos, a ideia abre espaço para uma negociação em que a estabilidade e a reconstrução sejam equilibradas com princípios de soberania e responsabilidade internacional — um problema que exige tanto a paciência do diplomata quanto a precisão do jogador de xadrez.
Enquanto isso, a proposição russa permanece como uma peça sobre o tabuleiro: pronta para ser movida, condicionada às respostas dos demais jogadores, e indicativa de que o contorno do fim do conflito poderá ser tão decisivo quanto os passos que o precederam.






















