Por Marco Severini — Em um movimento que altera a tectônica de poder da América Latina, o ataque militar dos Estados Unidos ao Venezuela, realizado nas primeiras horas do dia 3 de janeiro de 2026 (hora italiana), resultou na detenção e retirada do país do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores. A operação, reivindicada publicamente pelo presidente dos EUA, teve um impacto político imediato: a líder da oposição e laureada com o Prêmio Nobel da Paz 2025, María Corina Machado, anunciou que a oposição está “pronta a tomar o controle do governo”.
Em publicação nas suas redes sociais, Machado afirmou: “Estamos prontos. O regime terminou e a oposição democrática assume a responsabilidade pelo governo”. A declaração, direta e sem disfarces, é lida por observadores internacionais como a disposição de capitalizar politicamente a intervenção militar externa — um movimento que pode contornar os alicerces constitucionais do país, nos quais a figura do vice‑presidente Delcy Rodríguez teria papel central em situações de emergência.
Segundo fontes próximas à liderança oposicionista, a mensagem de Machado foi transmitida a aliados como um sinal de virada: não apenas uma vitória operacional sobre um governo, mas o início de uma transição política imediata. Mariela Magallanes, ex‑deputada da Assembleia Nacional e responsável internacional do partido La Causa Radical — hoje em exílio na Itália — descreveu o momento: “Estamos emocionalmente envolvidos, mas com a mente fria”. Para Magallanes, o sonho de retornar ao país precisa conviver, por ora, com a lucidez estratégica.
Fontes oficiais americanas e o próprio presidente Donald Trump reivindicaram a operação. Em comunicado e em publicações nas redes sociais, Trump descreveu o ataque como “bem‑sucedido” e anunciou a captura e expulsão de Maduro e de sua esposa do território venezuelano. Relatos noturnos indicam que cerca de sete explosões atingiram pontos de Caracas durante a operação. Em reação, o governo venezuelano autorizou medidas de “luta armada” e a Colômbia chegou a mobilizar tropas ao longo da fronteira, aumentando o risco de escalada regional.
Entre as hipóteses que circulam nos bastidores diplomáticos está a possibilidade de que a saída de Maduro tenha sido, em algum grau, negociada — uma saída que mistura coerção externa com acordos discretos, visando evitar um vácuo de poder caótico. Em termos constitucionais, a ascensão de um governo interino liderado por Delcy Rodríguez seria a via legal; no entanto, a proclamação pública de Machado revela a intenção de muitas forças oposicionistas de atalhar essa via formal em prol de uma transição mais rápida e de facto.
Do ponto de vista geopolítico, estamos diante de um “movimento decisivo no tabuleiro”: uma potência externa executa uma jogada militar que redefine um equilíbrio regional e abre espaço para atores internos redesenharem fronteiras de influência invisíveis. A questão imediata é se a oposição terá coesão suficiente para governar, se as Forças Armadas venezuelanas aceitarão uma transferência de autoridade imposta externamente e se a comunidade internacional reconhecerá um novo executivo que tenha nascido de uma intervenção.
Como analista, observo dois riscos cruciais: primeiro, a erosão da legitimidade institucional se a transição for percebida como imposta do exterior; segundo, a fragmentação interna caso diferentes facções da oposição disputem o controle do aparelho de Estado. Machado, com sua presença carismática e agora com o capital político ampliado pelo Nobel, representa uma peça chave — mas governar exige construção de coalizões, controle do território e reconhecimento diplomático.
Nos próximos dias, a conferência de imprensa anunciada por Trump e a reação das potências regionais e do Conselho de Segurança serão determinantes para calibrar os próximos movimentos. A diplomacia terá de atuar como arquiteta: estabilizar o espaço político venezuelano sem sacrificar a soberania legítima de instituições, evitando que o país se torne terreno de conflitos por procuração.































