Por Marco Severini — Em movimentos que revelam a complexidade da atual tensão em Gaza, chegam notícias simultâneas do fluxo humanitário em Rafah, de atos de violência na Cisjordânia e de uma visita de alto simbolismo político que suscita controvérsia internacional.
O quarto grupo de palestinos que retornou à Faixa de Gaza chegou ao lado egípcio do posto de Rafah, em mais uma prova das operações coordenadas pelo Egito para facilitar passagem e assistência. Segundo a emissora Al-Qahera News, as equipes do Crescente Vermelho Egípcio receberam os retornados oferecendo serviços humanitários e pronto atendimento médico, com atenção específica a idosos e pessoas com deficiência. As autoridades egípcias reiteraram que o posto fronteiriço, pelo lado do Egito, não sofreu um fechamento permanente desde o início da crise, e que os centros logísticos de fronteira mantêm alto nível de alerta.
No interior da Cisjordânia, um episódio de vandalismo e incêndio criminoso — possivelmente atribuído a colonos — atingiu na manhã de hoje a aldeia cristã palestina de Taybeh, segundo reportagens da emissora pública Kan. As imagens difundidas pela mídia palestina mostram um veículo com a traseira carbonizada e inscrições em hebraico em um muro, com palavras como “vingança” e a expressão “Am Yisrael Chai”. Câmeras de segurança, registradas por volta das 5h, documentaram três indivíduos mascarados que chegaram e deixaram o local; polícias e forças armadas de Israel investigam o caso.
No tabuleiro diplomático, a iminente visita do presidente israelense Isaac Herzog à Austrália transformou-se em foco de debate. O deputado trabalhista australiano Ted Husic declarou-se “profundamente preocupado” pela vinda de Herzog, recordando uma imagem de 2023 que o mostra assinando um projétil de artilharia destinado a ser usado em Gaza — uma fotografia que, para muitos críticos, simboliza a difícil conciliação entre mensagens de coesão social e os atos de guerra.
Herzog está programado para chegar à Austrália na quinta-feira, 8 de fevereiro, a convite de Canberra, em gesto formal de solidariedade com a comunidade judaica após o ataque terrorista na praia de Bondi, em 14 de dezembro, no qual dois homens armados mataram 16 pessoas durante um piquenique do festival de Hanukkah; os autores foram abatidos por seguranças. O primeiro-ministro Anthony Albanese defendeu a visita como apropriada, mas alertou que ela provavelmente provocará protestos de grupos pró-Palestina e crescente desconforto entre parlamentares de diferentes partidos, preocupados com a guerra em Gaza e o elevado número de vítimas civis.
Ao centro da controvérsia está uma questão de imagem e de significado: Herzog atuará meramente como chefe de Estado em visita cerimonial ou como uma figura cujas declarações e gestos durante o conflito atraem escrutínio político e moral global? É um movimento decisivo no tabuleiro da diplomacia, onde cada visita e cada fotografia reposicionam peças e redesenham fronteiras invisíveis de influência.
Do ponto de vista estratégico, os acontecimentos revelam a fragilidade dos alicerces humanitários e a tectônica de poder que, simultaneamente, exige respostas práticas — corredores, assistência médica, investigações — e provoca dilemas de legitimidade política. A observação atenta das próximas 48 horas será crucial para entender se esses eventos evoluirão para escaladas localizadas ou se traduzirão em pressões diplomáticas mais amplas sobre Israel, Egito e atores globais envolvidos na governança dessas passagens e na gestão da crise humanitária.






















