Por Marco Severini, Espresso Italia
O posto fronteiriço de Rafah, porta essencial entre a Faixa de Gaza e o Egito, voltou a operar de forma limitada, mas o movimento no primeiro dia foi simbólico: apenas 12 palestinos conseguiram atravessar para o Egito, segundo fonte na fronteira citada pela AFP. Do total, foram registrados cinco feridos e sete acompanhantes.
O número está muito abaixo da cota anunciada pelas autoridades: uma capacidade prevista de até 50 pacientes por dia, com autorização para dois acompanhantes por paciente. A discrepância entre a cota formal e a realidade operacional evidencia não somente problemas logísticos, mas também um bloqueio humanitário que tem dimensões estratégicas e políticas — um movimento decisivo no tabuleiro cuja consequência é o estrangulamento de necessidades médicas urgentes.
Não houve confirmação imediata sobre quantas pessoas voltaram para Gaza a partir do lado egípcio; o cruzamento está aberto apenas para um número restrito de pedestres diariamente. Organizações humanitárias alertam que o ritmo atual é incompatível com a demanda real: segundo ActionAid, cerca de 20 mil pessoas aguardam para acesso a cuidados e saídas seguras. A ONG adverte que a incapacidade de garantir passagens e assistência pode agravar uma crise humanitária que se aproxima de contornos de limpeza étnica, se não houver mudanças substanciais nas políticas e no apoio internacional.
Hoje, às 14h30, será realizada na Sala de Imprensa da Câmara dos Deputados italiana a conferência de apresentação do novo relatório da Relatora Especial da ONU para os Territórios Palestinos Ocupados, Francesca Albanese, intitulado “Genocídio de Gaza: um crime coletivo“. O documento atribui responsabilidades compartilhadas entre Estados — desde cobertura diplomática até suprimentos militares, interesses econômicos e violações de normas humanitárias — traçando um panorama em que o crime contra o povo palestino se configura como resultado de uma arquitetura de conivências internacionais.
Participarão da coletiva, entre outros, os deputados Stefania Ascari, Dario Carotenuto e Carmela Auriemma (Movimento 5 Stelle), os senadores Tino Magni e Peppe De Cristofaro (AVS), o deputado Arturo Scotto (PD), o advogado Fausto Gianelli e a professora de direito internacional Alessandra Annoni.
Em desenvolvimento jurídico paralelo, pela primeira vez tribunais franceses emitiram mandados para duas ativistas franco-israelenses sob suspeita de “complicidade em genocídio”, ligadas a ações que teriam bloqueado a entrada de ajuda humanitária a Gaza entre 1º de janeiro e 26 de novembro de 2024 e em maio de 2025. Os incidentes teriam ocorrido em pontos críticos de passagem de ajuda, como os postos de Nitzana e Kerem Shalom. Os mandados, emitidos no fim de julho de 2025, recaem sobre Nili Kupfer-Naouri, associada à Israel Is Forever, e Rachel Touitou, da organização Tsav 9, no âmbito de investigação aberta em maio de 2025 em Paris após denúncias de ONGs.
Esses desenvolvimentos — a reabertura tímida de Rafah, o relatório que aponta responsabilidade sistêmica e as ações judiciais na França — compõem um mosaico diplomático cujos alicerces são frágeis. A tectônica de poder em jogo revela que a gestão dos corredores humanitários deixa de ser apenas uma operação logística para tornar-se questão de soberania, influência e imagem internacional.
Enquanto isso, milhares seguem à espera, e o pequeno número de travessias ressalta o contraste entre a retórica de acesso e a realidade no terreno. A solução requer, além de vontade política imediata, um redesenho de procedimentos que permita transformar a abertura formal do posto de Rafah em um corredor efetivo de socorro e proteção.
Marco Severini — Espresso Italia






















