Gaza vive nesta segunda-feira um momento de esperança cautelosa com a reabertura parcial do posto de passagem de Rafah, após trabalhos preparatórios realizados no domingo. O movimento surge no âmbito do cessar-fogo iniciado em 10 de outubro, mas chega em meio a ataques recentes do exército de Israel que deixaram ao menos 30 palestinos mortos — lembrando que os alicerces da estabilidade na região permanecem frágeis.
O retorno parcial de Rafah ocorre depois de quase um ano de fechamento quase total desde maio de 2024. A operação será supervisionada por agentes da União Europeia, porém o controle de segurança ficará sob a gestão direta de Israel e do Egito, com restrições iniciais extremamente severas. Em uma decisão que traça, como num lance de xadrez, fronteiras de mobilidade muito estreitas, o primeiro‑ministro Benjamin Netanyahu autorizou a saída diária de apenas 50 pacientes em necessidade de tratamentos fora da faixa, cada um acompanhado por até dois parentes. Simultaneamente, 50 pessoas que haviam ficado retidas fora da Gaza poderão retornar diariamente. O trânsito de mercadorias, por ora, segue proibido.
Esses tetos rígidos provocam apreensão generalizada entre civis e autoridades sanitárias locais. O Ministério da Saúde de Gaza já alertou para a falta de coordenação operacional e ressaltou a inadequação das cotas diante de um contingente estimado de cerca de 20.000 pessoas que necessitam urgentemente de cuidados no exterior. O quadro real é o de uma população pressionada por necessidades médicas e logísticas, enquanto a diplomacia busca administrar um frágil cessar‑fogo.
No âmbito político e econômico, surge uma proposta que poderia redesenhar, de modo sutil porém profundo, os vetores de influência sobre a Faixa: os Emirados Árabes Unidos estudam assumir a gestão civil e financiar a reconstrução de Gaza, segundo reportagens do canal israelense Canal 12. Abu Dhabi teria realizado contatos com Washington e Tel Aviv e estaria disposto a aportar bilhões imediatamente, pagar pelas mercadorias que entrarem na faixa via Israel e contratar empresas israelenses para a execução de obras e logística. As primeiras trocas de rascunhos de um acordo estariam em curso entre os governos de Abu Dhabi e Tel Aviv, e a proposta conta com o aval israelense — configurando o que alguns descrevem como uma intenção dos Emirados de se tornar um ‘protetor civil’ da região.
Trata‑se de um movimento estratégico de longo alcance: transformar a gestão civil em mecanismo de influência econômica e política, enquanto se mantêm as condições de segurança sob controle israelense e egípcio. Se concretizada, a iniciativa dos Emirados Árabes Unidos representaria um redesenho de fronteiras invisíveis no xadrez regional, colocando capitais do Golfo em posição de grande poder de negociação sobre a reconstrução e a logística humanitária.
Paralelamente, a tensão transfronteiriça se mantém. No sul do Líbano, um ataque atribuído por Beirute a forças israelenses deixou uma pessoa morta e várias feridas — entre elas duas crianças, segundo o Ministério da Saúde libanês. O incidente ocorreu em Ebba, no distrito de Nabatiyeh. A agência estatal NNA informou que o morto era um motorista; a Força de Defesa de Israel (IDF) afirma ter atingido alvos ligados ao Hezbollah, identificando o homem como um agente operacional da organização na área. Este episódio ressalta que, apesar do cessar‑fogo na Faixa, a tectônica de poder na região continua suscetível a escaramuças que podem reativar colisões maiores.
Em suma, o reestabelecimento parcial do trânsito por Rafah e a proposta dos Emirados Árabes Unidos para gerir e reconstruir Gaza delineiam um novo capítulo no tabuleiro de influências do Oriente Médio — um capítulo onde a logística humanitária, os interesses estatais e a diplomacia econômica se entrelaçam. Agora, como em uma partida bem calculada, cada movimento administrativo e cada acordo de bastidores terão impactos práticos imediatos sobre a vida de milhares, enquanto os atores na região testam limites e buscamentos de vantagem estratégica.






















