Em um movimento que revela os alicerces frágeis das rotas humanitárias no teatro de operações, apenas 397 pessoas atravessaram o posto de passagem de Rafah desde 2 de fevereiro, segundo comunicado do gabinete do governo de Gaza. Do total previsto de 1.600 deslocamentos, o fluxo se resumiu a 225 saídas da enclave palestina e 172 entradas — números que, no tabuleiro geopolítico, denotam um bloqueio logístico e uma forte retração da mobilidade civil.
Relatos hospitalares citados por Al Jazeera indicam um aumento da letalidade nas zonas urbanas: uma mulher palestina foi morta por forças israelenses no povoado de al-Masdar, na faixa central de Gaza; outros dois civis foram mortos por um bombardeio em via Salah ud-Din, igualmente na faixa central; e um ataque aéreo à noite contra um apartamento residencial na parte ocidental de Gaza City elevou para quatro o número de mortos naquele episódio.
O edifício atacado no bairro de Al-Nasr, já parcialmente danificado por ofensivas anteriores, abrigava tendas de famílias deslocadas que foram também comprometidas pelo ataque. Fontes relatam que o episódio aparenta ter sido um alvo específico. Trata-se de um bairro densamente povoado — cenário onde cada ataque transforma-se numa catástrofe humanitária imediata.
Do ponto de vista institucional, o gabinete do governo de Gaza acusa as forças israelenses de violarem o acordo de cessar-fogo ao menos 1.500 vezes desde sua entrada em vigor. Essa persistente erosão do acordo tem disseminado pânico entre a população, que vive com receio constante do próximo movimento no tabuleiro da violência.
No plano internacional, surge a oferta de uma contribuição militar e humanitária expressiva: a Indonésia declarou que poderia disponibilizar até oito mil efetivos para uma força de estabilização internacional na Faixa de Gaza. O chefe do Estado‑Maior indonésio, general Maruli Simanjuntak, afirmou que os detalhes sobre composição e localização ainda estão em negociação, mas que o contingente provavelmente será estruturado como uma brigada — entre cinco e oito mil militares — incluindo unidades médicas.
Paralelamente, um sinal de resposta humanitária cooperativa chegou por via aérea: um C130J Hercules da Força Aérea italiana pousou na noite passada em Ciampino, vindo de Eilat. Esse foi o primeiro de três voos planejados numa operação para receber pacientes da Faixa de Gaza em solo italiano. A iniciativa prevê a transferência de 26 pacientes em estado de necessidade urgente, acompanhados por familiares — um total de 117 pessoas.
Ao chegar à área do 31º stormo em Ciampino foram desembarcados os primeiros quatro pacientes, todos menores, que seguiram por ambulância aos hospitais Umberto I e Bambino Gesù, em Roma, e ao Santobono, em Nápoles. Os demais pacientes serão encaminhados aos aeroportos de Milano Linate e Pisa. A operação foi coordenada pela Presidência do Conselho de Ministros em cooperação com o Ministério da Defesa e autoridades sanitárias italianas.
Num contexto onde os movimentos de tropas e ajudas cruzam fronteiras e interesses, a situação em Gaza exibe a clássica tectônica de poder: atores regionais e globais reposicionam peças, enquanto civis pagam o preço dos espaços vazios deixados pela diplomacia falha. Há aqui uma necessidade urgente de restaurar corredores seguros e de transformar promessas de estabilização em presença efetiva e protegida — um movimento decisivo no tabuleiro que não admite hesitação.






















