Por Marco Severini — As manifestações contra o regime no Irã ganharam amplitude nacional apesar do quase total blackout de internet e do cerco informativo imposto pelas autoridades. Milhares de cidadãos tomaram as ruas após o apelo do ex-príncipe herdeiro exilado Reza Pahlavi, desafiando tanto a ausência de comunicações quanto a ação das forças de segurança.
Antes do escurecimento da rede, breves vídeos circulavam nas plataformas mostrando manifestantes em Teerã e outras cidades, entoando palavras de ordem contra a República Islâmica e confrontando cenas de ruas tomadas por detritos em chamas. As imagens documentam veículos incendiados e virados; em algumas gravações, ativistas aparecem marchando em número considerável, bloqueando avenidas e cercando edifícios estatais.
A emissora pública iraniana quebrou o silêncio midiático e atribuiu os tumultos a “agentes terroristas” supostamente vinculados aos Estados Unidos e a Israel, acusando-os de incendiar instalações e incitar a violência. A estatal mencionou genericamente a existência de “vítimas”, sem fornecer pormenores. Por contraste, a agência Human Rights Activists News Agency, sediada nos EUA, soma ao menos 45 mortos e mais de 2.200 prisões relacionadas às manifestações — números que ainda não foram confirmados por fontes oficiais iranianas.
Paralelamente, houve um colapso generalizado das conexões digitais: redes móveis ficaram intermitentes, conexões internacionais praticamente inexistentes e linhas telefônicas terrestres também teriam sido alvo de interrupção. Para analistas externos, a intenção é explícita. Holly Dagres, do Washington Institute for Near East Policy, relatou à AP que o corte tem por objetivo “impedir que o mundo veja as manifestações”. Reza Pahlavi declarou, segundo a AP, que o regime não só cortou a internet como também as linhas fixas e poderia tentar interferir até em sinais satelitais.
Em vídeo divulgado por ativistas, manifestantes atearam fogo a um escritório da Islamic Republic of Iran Broadcasting em Isfahan. Filmagens compartilhadas mostram ainda multidões marchando em Mashhad, segunda maior cidade do país e cidade natal do aiatolá Ali Khamenei, onde manifestantes bloquearam um importante corredor viário. Em Teerã, as imagens captadas antes do blackout exibem carros incendiados e barricadas improvisadas.
A organização de direitos humanos Hengaw, citando meios estatais, informou que dois oficiais do regime teriam sido mortos durante confrontos em Kermanshah, no oeste do país. A sequência de eventos — protestos, cortes de comunicação e repressão — desenha uma emergência que ultrapassa o âmbito local, impondo um redesenho temporário das linhas de influência internas e externas.
No plano internacional, o presidente dos EUA, Donald Trump, em entrevista à Fox News, lançou um duro alerta ao regime, prometendo apoio aos manifestantes e ameaçando represálias severas caso as forças iranianas voltem a reprimir com violência. “Em outras ocasiões atiraram indiscriminadamente contra a população”, disse Trump, referindo-se a execuções e detenções em massa do passado; “Se o fizerem de novo, os atingiremos com força”.
Do ponto de vista estratégico, estamos diante de um movimento que procura forçar uma fissura profunda nos alicerces do sistema político iraniano. O corte de comunicações representa um lance defensivo no tabuleiro: busca negar ao adversário — neste caso, a opinião pública doméstica e a comunidade internacional — a visibilidade necessária para mobilizar solidariedade e pressões externas. Ao mesmo tempo, os relatos de violência e detenções obedecem à mesma lógica de contenção.
Enquanto os números exatos de vítimas e detidos ainda carecem de verificação independente, a tectônica de poder em jogo exige atenção internacional coordenada. Reza Pahlavi conclamou líderes europeus a alinharem-se com os EUA para responsabilizar o regime e restabelecer as comunicações, para que a “voz do povo iraniano” não seja silenciada. A resposta das capitais ocidentais e a capacidade das redes de informação de contornar o blackout serão determinantes para o desdobrar desse movimento.





























