Por Marco Severini — Em uma arquitetura de segurança desenhada nos bastidores, a Ucrânia e seus parceiros europeus e norte-americanos delinearam um plano em vários níveis para monitorar e fazer valer um eventual cessar-fogo com a Rússia, segundo reportagem do Financial Times. Trata-se de um arranjo pensado como um mecanismo escalonado: do policiamento e dissuasão europeus a, no extremo, o envolvimento direto das forças armadas dos Estados Unidos.
O esboço da iniciativa prevê que a primeira fase seja inaugurada por uma força de dissuasão liderada por países europeus, apoiada por capacidades de logística e inteligência providas pelos EUA. Em termos operacionais, essa presença europeia teria por objetivo assegurar medidas de rassicurazione — vigilância e posturas de contenção em ar, mar e terra — ao longo de uma linha de frente que, segundo o plano, se estende por cerca de 1.400 km.
Washington comprometeria capacidades avançadas de monitoramento tecnológico, fornecendo sensores e plataformas de inteligência para acompanhar, em tempo real, a conformidade com os termos da trégua. A estratégia de resposta foi concebida como uma série de limiares: uma violação inicial desencadearia, no prazo de 24 horas, um alerta diplomático e ações cirúrgicas por parte das forças ucranianas; desrespeitos persistentes elevariam a resposta para a ativação de uma segunda fase e, no cenário mais grave, a coalizão ocidental responderia militarmente de forma coordenada, com participação direta dos Estados Unidos.
A segunda etapa envolve o emprego da chamada coalizão dos Voluntários — um conjunto de contingentes reunidos por vontade política de diversos países europeus, incluindo membros da União Europeia mais o Reino Unido, Noruega, Islândia e Turquia. Já o nível máximo do plano reserva uma reação robusta: se a violação do cessar-fogo evoluir para um ataque em larga escala, passadas 72 horas desde a primeira ruptura, seria ativada uma resposta militar coordenada com o suporte ocidental e o envolvimento direto das forças americanas.
Diplomaticamente, Londres e Paris já ofereceram compromissos públicos de desdobramento de tropas e armamentos no contexto de um pacote de garantias de segurança elaborado em coordenação com Washington. No entanto, o eixo central dessa arquitetura permanece a manutenção da trégua — o verdadeiro teste será a robustez dos mecanismos de verificação e a credibilidade das penalidades previstas.
Do ponto de vista estratégico, observo que este plano representa um movimento cauteloso, mas decisivo, no tabuleiro europeu: procura criar alicerces capazes de conter uma nova ruptura sem, ao mesmo tempo, gerar uma escalada imediata. É um exercício de tectônica de poder — redesenho de fronteiras invisíveis por meio de posturas de dissuasão e de um arcabouço de respostas graduais. A eficácia dependerá tanto da sincronização política entre aliados quanto da capacidade técnica de monitoramento ao longo de uma frente extensa e heterogênea.
Em suma, estamos diante de um roteiro estratégico que busca equilibrar prevenção e prontidão: um desenho de segurança que, se implementado com disciplina, pode transformar a incerteza em contenção; se falhar, poderá forçar decisões dramáticas num cenário já marcado por fragilidades diplomáticas.






















