Em uma sequência de pronunciamentos e movimentações diplomáticas que parecem desenhar os alicerces de uma nova fase na crise ucraniana, líderes europeus discutem a criação de uma força internacional a ser posicionada após um eventual cessar-fogo. No entanto, a construção dessa solução diplomática encontra limites claros: a Alemanha e a Itália já sinalizaram, de formas distintas, que não pretendem enviar tropas.
O chanceler alemão Friedrich Merz, após participar da reunião da chamada Coalizão dos Voluntários realizada em Paris, confirmou que Berlim não pretende desdobrar tropas alemãs em solo ucraniano mesmo no caso de um cessate-fogo duradouro com a Rússia. Segundo reportagem do jornal Bild, a chancelaria alemã deixou claro que, por ora, não haverá forças militares alemãs na Ucrânia. Essa posição marca um limite importante na arquitetura de segurança que Paris e Londres têm tentado consolidar.
Na esfera diplomática, o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky prossegue com agenda internacional: chegou oficialmente a Chipre, onde se reunirá com o presidente cipriota Nikos Christodoulides, com o arcebispo Georgios e participará de encontros conjuntos com o presidente do Conselho Europeu António Costa e a presidente da Comissão Europeia Ursula von der Leyen. À noite, Zelensky deverá estar presente na cerimônia de abertura da presidência cipriota do Conselho da União Europeia. Essas visitas reforçam a tônica de que, ao lado da pressão militar, se mantêm os esforços diplomáticos para erguer pontes entre nações e sustentar os direitos do Estado ucraniano.
No campo de combate, as forças russas atacaram a Ucrânia na madrugada entre terça e quarta com um total de 95 drones — 60 deles do tipo Shahed — lançados a partir de áreas em Primorsko-Akhtarsk, Oryol e Donetsk, informou a aviação militar ucraniana via Telegram. A defesa aérea ucraniana abatou 81 desses vetores, acrescentando que 14 drones de ataque foram identificados em oito localidades, com destroços caindo em cinco pontos distintos. O episódio expõe a persistente capacidade de pressão da Rússia e a necessidade de manter, mesmo após uma eventual tregua, estruturas de defesa e vigilância robustas.
Outro capítulo envolvendo Moscou atingiu o tráfego marítimo: a Rússia colocou meios navais para escoltar o petroleiro Marinera, ex-Bella-1, perseguido por forças americanas no Atlântico, segundo reportagem da CBS News. A embarcação, que atualmente não teria carga a bordo mas já foi associada ao transporte de petróleo venezuelano — além de suspeitas anteriores de cargas iranianas — mudou de nome e de bandeira nos últimos meses. A Guarda Costeira dos EUA já havia tentado embarcar na antiga Bella-1 nos Caribe, com um mandato de captura por violação de sanções; depois a embarcação alterou rota e identidade. Dados de rastreamento AIS a colocaram no Atlântico Norte, entre Escócia e Islândia, embora as autoridades advirtam que sinais AIS podem ser falsificados.
O quadro delineado por Paris, Londres, Berlim e Roma revela como se ajustam, tijolo por tijolo, os alicerces da resposta ocidental: há vontade de criar mecanismos multilaterais — uma força internacional —, mas também há limites domésticos à mobilização de tropas, como deixou claro, por exemplo, a primeira-ministra italiana Giorgia Meloni, que negou o envio de soldados italianos para a Ucrânia. A tensão entre ambição diplomática e restrições internas aponta para meses de negociação, com a necessidade de erigir uma ponte estável entre as decisões de Estado e a vida concreta das populações afetadas.































