Miami voltou a ser palco de um esforço diplomático importante: uma delegação ucraniana chefiada por Kyrylo Budanov desembarcou nos Estados Unidos para uma rodada de conversas dedicada aos detalhes de um potencial acordo de paz com a Rússia. Ao lado do chefe negociador Rustem Umerov e do líder parlamentar Davyd Arakhamia, Budanov declarou nas redes sociais que estão previstos encontros com o investidor Stephen Witkoff, o ex-conselheiro Jared Kushner e o secretário americano do Exército, Daniel Driscoll.
Na prática, trata-se de mais do que um ciclo de reuniões: é a tentativa de erigir, com precisão, os alicerces de um acordo que a Ucrânia considera uma questão de sobrevivência e de dignidade nacional. Nas palavras de Budanov, “a Ucrânia precisa de uma paz justa. Estamos trabalhando para alcançar esse resultado.” A delegação ucraniana aposta que o diálogo com atores ligados ao ex-presidente Donald Trump e outros interlocutores privados e públicos possa abrir caminhos políticos e garantias que ainda não foram obtidas em fóruns tradicionais.
Enquanto isso, no terreno, a guerra continua a cobrar seu preço sobre a infraestrutura civil. Na região de Odessa, um novo ataque russo atingiu instalações energéticas e provocou um incêndio numa das estruturas — segundo o Escritório para Assuntos dos Veteranos da cidade (Ova), citado pela Ukrainska Pravda. Não houve registro de feridos e, conforme a autoridade local, as infraestruturas críticas e os serviços essenciais permanecem operacionais, mas a ocorrência agrava a já frágil situação energética ucraniana.
O prefeito de Kiev, Vitali Klitschko, alertou para uma crise elétrica severa após os recentes ataques: a capital consegue fornecer eletricidade a aproximadamente metade dos seus habitantes. Klitschko qualificou a situação como o maior desafio de Kiev desde o início da invasão, sinalizando o impacto direto das ofensivas sobre a vida cotidiana—uma lógica que derruba barreiras burocráticas e expõe o peso da caneta nas decisões que afetam milhões.
Em paralelo, a AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica) informou que foi acordado um cessar-fogo local nas proximidades da central nuclear de Zaporižžja para permitir reparos em uma linha de energia de reserva de 330 kV, danificada em 2 de janeiro. Atualmente, a usina ocupa‑da depende de uma única linha principal de 750 kV para o resfriamento dos reatores; os reparos, previstos para os próximos dias, buscam reduzir o risco de uma crise maior. Essa situação reforça a fragilidade da arquitetura de proteção civil em zonas de conflito e a necessidade de garantias práticas para evitar desastres.
Como repórter, observo que essas conversas em Miami funcionam como uma ponte entre decisões tomadas em salas de poder e seus reflexos na vida dos cidadãos — desde bairros de Kiev às linhas de transmissão que mantêm hospitais e lares funcionando. A negociação, por sua vez, exige não só cláusulas políticas, mas também soluções concretas sobre segurança energética, garantias internacionais e mecanismos de monitoramento que possam servir de alicerce a qualquer acordo.
Enquanto a delegação ucraniana busca apoio e clarificação de termos com figuras influentes do cenário americano e privado, o relógio da guerra marca o tempo de reparos, de apagões e da diplomacia que tenta transformar destruição em prescrição viável para a paz.






















