Dmitry Medvedev, vice‑presidente do Conselho de Segurança da Rússia e ex‑presidente, afirmou à agência TASS que os riscos de uma guerra mundial são “muito elevados” e que a situação global pode escapar ao controle. O anúncio, feito em entrevista à imprensa estatal russa, sublinha um momento de elevada tensão na arena internacional, no qual movimentos diplomáticos e estratégicos se entrelaçam como peças num complexo tabuleiro.
Medvedev reconheceu que houve uma retomada de contactos com os Estados Unidos e qualificou esse facto como positivo, esclarecendo que as conversações abrangem uma vasta gama de questões, incluindo a busca de uma resolução para o conflito na Ucrânia. Ainda assim, advertiu que, apesar das consultas, “a situação geral é muito perigosa” e que não se pode excluir a possibilidade de um conflito global: “os riscos são muito elevados e não diminuíram”.
No tom seco de um estrategista que mede cada palavra como um lance decisivo, Medvedev também comentou disputas periféricas de influência. Afirma que nem a Rússia nem a China representam uma ameaça à Groenlândia, enquanto sugere que a desintegração da NATO e o eventual retorno da União Europeia à compra de gás russo seriam, segundo sua leitura, movimentos úteis ao planeta — uma avaliação que revela a ambição russa de redesenhar e reposicionar eixos de influência energética e estratégica.
Em outro ponto da entrevista, Medvedev condenou o que definiu como o rapto do presidente venezuelano Maduro por parte dos Estados Unidos, qualificando o episódio como “um desastre para o direito internacional”. A declaração serve como reflexo da polarização e da instrumentalização do direito internacional em disputas entre grandes potências.
Como analista que observa a tectônica de poder, é preciso notar as consequências práticas deste alerta: a retórica pública de um vice‑presidente do Conselho de Segurança russo tem efeitos tanto sobre as cadeias de decisão militar quanto sobre os mercados de energia e os alinhamentos diplomáticos. A intenção declarada de influenciar a arquitetura energética da Europa — com o regresso ao gás russo — é um movimento que visa recuperar alavancas perdidas e redesenhar fronteiras invisíveis de dependência.
Ao mesmo tempo, a referência à Groenlândia e a negação de uma suposta ameaça por parte de Moscou ou Pequim funcionam como tentativa de moldar narrativas estratégicas em regiões sensíveis do Atlântico Norte. No tabuleiro geopolítico, cada menção pública é um lance calculado que busca condicionar percepções e criar alicerces para futuras manobras diplomáticas.
Em síntese, a declaração de Medvedev não é apenas um alerta retórico: é uma peça na arquitetura de uma nova fase de competição entre grandes potências. Se o mundo continuará a responder com contenção institucional ou com escaladas mais audazes, dependerá da capacidade das principais capitais de reequacionar interesses e reconstruir meios confiáveis de gestão de crise — antes que os riscos que hoje se projetam como elevados se transformem em movimentos irreversíveis no grande tabuleiro da estabilidade internacional.






















