Por Marco Severini — Em um movimento que revela os limites e as cautelas do consenso europeu, Kaja Kallas, alta representante da União Europeia para política externa e segurança, afirmou neste domingo que acha improvável que os governos dos Estados-membros concedam à Ucrânia uma data concreta de adesão, apesar do pedido explícito do presidente Volodymyr Zelensky.
Durante uma mesa redonda na Conferência de Segurança de Munique, Kallas afirmou: “A minha sensação é que os Estados-membros não estão prontos a fornecer uma data concreta. Há ainda muito trabalho a fazer”. A observação reflete um choque entre o desejo de dar garantias políticas a Kiev e a realidade institucional da União, onde a adesão é um processo baseado no mérito e condicionado ao alinhamento legislativo e às reformas internas.
Segundo diplomatas, a inclusão da adesão da Ucrânia em 2027 consta de um plano de paz em 20 pontos discutido entre Estados Unidos, Ucrânia e União Europeia, com a finalidade de oferecer um horizonte de prosperidade pós-conflito. Contudo, muitos governos europeus consideram tal data — ou qualquer prazo fixo — irreais, pois a adesão só pode ocorrer quando houver progressos mensuráveis nos critérios da UE.
O presidente da Letônia, Edgars Rinkevics, ecoou o ceticismo de Kallas e manifestou pouca esperança de um acordo de paz iminente. Rinkevics reconheceu a necessidade estratégica de integrar a Ucrânia à União, mas advertiu que qualquer solução deve também acomodar aspirantes de longa data, como os países dos Balcãs Ocidentais e a Moldávia. “Quer se goste ou não, está estreitamente ligado ao acordo de paz. Haverá um acordo de paz ou não?”, disse ele, salientando a estagnação do lado russo como condicionante essencial.
Em resposta ao debate ocidental, o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, reiterou, em entrevista à agência Tass, a narrativa russa que atribui aos países ocidentais e aos seus aliados a responsabilidade por eventos desde 2014, qualificando-os com termos fortes e acusatórios. A retórica de Moscou contrapõe-se frontalmente à avaliação de Kallas, que disse na mesma conferência que a Rússia não é mais a superpotência de outrora — que saiu fragilizada por mais de uma década de conflitos e por uma guerra em grande escala na Ucrânia, com custos humanos e materiais devastadores, isolamento dos mercados de energia europeus e êxodos de população.
Do ponto de vista estratégico, o episódio desenha um tabuleiro de xadrez em que os movimentos públicos obedecem a limites táticos: oferecer uma data poderia ser um lance decisivo para fortalecer as garantias de segurança pedidas por Kiev; negar uma data, por outro lado, é um sinal de prudência institucional que visa preservar a coerência jurídica da União e evitar fraturas internas com outros candidatos à adesão.
As declarações de Kallas e Rinkevics, e as reacções de Moscou, revelam a tectônica de poder que orienta as negociações: não se trata apenas de um calendário político, mas de alicerces diplomáticos e das garantias que um acordo de paz exigirá. Enquanto as candidaturas e os interesses regionais se entrelaçam, a UE procura fórmulas criativas — e ainda não definidas — para conciliar urgência política com realismo institucional.
Em resumo, a ausência de compromisso de data por parte dos Estados-membros não encerra a hipótese de integração, mas indica que a União prefere negociar por mérito e condicionantes, mantendo aberta a possibilidade de soluções híbridas que acalmem tanto Kiev quanto os países vizinhos e aliados. O futuro imediato permanece, portanto, uma combinação tênue de diplomacia paciente e pressão estratégica — o tipo de jogo que exige movimentos coordenados e precisão no tabuleiro geopolítico.






















