Por Marco Severini — Em um movimento que mistura cálculo estratégico e pressão política interna, o Governo israelense anunciou que aceita a reabertura limitada do valico de Rafah após concluir as buscas pelo último refém encontrado morto em Gaza. A decisão, comunicada no contexto do chamado “plano em 20 pontos” proposto pelo ex-presidente Trump, prevê trânsito restrito de pessoas sob um mecanismo de pleno controle.
Fontes da imprensa israelense relatam que ministros da extrema-direita criticaram a decisão de permitir o acesso no ponto de fronteira. Em reunião de gabinete, o ministro da segurança nacional, Itamar Ben Gvir, teria afirmado: “Fizemos grandes coisas, como eliminar dezenas de milhares de terroristas, mas ainda não dizimamos por completo o Hamas“. A declaração reflete a tensão entre objetivos militares amplos e concessões humanitárias pontuais — um dilema típico quando se joga uma partida de alta complexidade geopolítica.
Na sessão noturna do gabinete político de segurança, foi também apresentado um relatório sobre os preparativos para um possível ataque ao Irã com participação americana. Veículos como Ynet informaram que Israel já teria finalizado preparativos para todos os cenários concebíveis, enfatizando que o país se posiciona em prontidão diante das variáveis regionais.
Paralelamente, a agência das Nações Unidas para os refugiados palestinos, a UNRWA, denunciou que sua sede central parcialmente demolida em Jerusalém Oriental foi incendiada. Segundo comunicado da agência, a instalação já havia sido tomada e iniciada a demolição pelas autoridades israelenses após a proibição de suas operações no país em 2025. A UNRWA descreveu o incêndio como parte de um “tentativo contínuo de desmontar o status de refugiado palestino”.
Bombeiros e equipes de socorro atuaram no local para conter as chamas e evitar a propagação, mas as causas do incêndio não foram esclarecidas pelas autoridades. A ONU condenou o sequestro e as demolições realizadas na semana anterior, e a agência insistiu que suas propriedades desfrutam das prerrogativas e imunidades conferidas às estruturas da organização internacional. Jonathan Fowler, porta-voz da UNRWA, lembrou que “Israel é legalmente obrigado a proteger e respeitar as estruturas da ONU”, como qualquer Estado-membro em qualquer parte do mundo.
Vale recordar que a UNRWA foi criada para documentar e assistir as centenas de milhares de palestinos deslocados desde 1948, oferecendo registros de condição de refugiado, serviços de saúde e educação. Embora sua sede em Jerusalém Oriental esteja sem pessoal desde janeiro de 2025 — quando entrou em vigor a lei que proíbe suas operações no país — a agência continua atuante na Cisjordânia e na Faixa de Gaza.
O Executivo israelense acusa a UNRWA de oferecer cobertura a militantes do Hamas e aponta “problemas de neutralidade” em investigações internas, sem contudo apresentar, publicamente, provas conclusivas que sustentem todas as alegações. Nesse conjunto de movimentos — fechamento parcial de instituições internacionais, concessões limitadas no ponto de passagem e preparativos militares amplos — percebe-se o redesenho de fronteiras invisíveis e o reposicionamento de influências num tabuleiro cuja tectônica de poder permanece altamente instável.
Do ponto de vista estratégico, a reabertura limitada de Rafah representa um movimento cuidadoso: permite aliviar pressões humanitárias imediatas e atender a agendas diplomáticas externas, sem abandonar a lógica de controle total que domina a política de segurança interna. É um lance calculado, que mantém opções abertas enquanto se preserva o objetivo declarado de neutralizar células militantes. A tensão entre necessidade humanitária e requisitos de segurança segue sendo o principal núcleo dessa partida.






















