Ao décimo dia consecutivo, os **protestos** que varrem as principais cidades e periferias do **Irã** não mostram sinais de arrefecimento. Segundo a agência local Hrana, o número de **mortes** já chega a 36 — entre eles constam dois policiais, mortos em Lordegan, no sudoeste do país, conforme reporta a agência Fars. Entre as vítimas há ainda dois menores de idade.
O aspecto repressivo permanece o centro da resposta do **regime** aos manifestantes que contestam a liderança do aiatolá **Khamenei**. O fotógrafo e videomaker **Sadegh Parvizzadeh** publicou nas redes um vídeo em que relata ter sido atingido no rosto e em um olho por um projétil enquanto documentava os cortejos — um símbolo doloroso da interseção entre informação e violência nas praças iranianas.
Os atos de rua ocorreram em cerca de 92 cidades e as prisões já ultrapassam as **2.000 detenções**, num padrão que lembra movimentos sociais que rapidamente se tornam crises de segurança interna. O governo mostra um ritmo dual: o presidente **Massoud Pezeshkian** orientou as forças de segurança a não empregarem violência contra manifestantes pacíficos, pedindo distinção com os «revoltosos». Em contraponto, o chefe do **exército**, major-general **Amir Hatami**, reagiu às declarações americanas — nas quais o presidente dos EUA advertiu que poderia intervir caso Teerã mantivesse a repressão mortal — ameaçando uma **ação preventiva** caso considere a retórica externa uma ameaça à República Islâmica.
No tabuleiro internacional, as peças também se movem. A **Austrália** aconselhou seus cidadãos no país a regressarem o quanto antes. Em Londres, o deputado conservador Tom Tugendhat solicitou ao governo trabalhista de Keir Starmer a divulgação ao Parlamento de informações sobre eventuais fluxos de **armas e munições** da Rússia para o **Irã**, bem como sobre possíveis remessas de reservas de ouro iranianas para a Rússia — medidas avaliadas em Londres como preparação para uma eventual fuga de quadros governamentais caso a contestação ganhe amplitude.
As origens da revolta são fundamentalmente econômicas: colapso da moeda, inflação galopante e dificuldades no comércio. O surpreendente engajamento dos lojistas do **Gran Bazar** de Teerã — tradicionalmente cautelosos perante o poder —, que se uniram aos estudantes, revela a profundidade do descontentamento. O governo tenta mitigar o descontentamento com um pagamento mensal equivalente a **7 dólares** aos chefes de família para compra de gêneros básicos (arroz, carne, massa), mas comerciantes alertam que itens essenciais como o óleo de cozinha podem ver preços triplicarem, o que neutralizaria o auxílio.
A agência Hrana identifica no **Gran Bazar** o epicentro das mobilizações na capital, com pontos sensíveis nos mercados do ouro e de câmbio, no setor de tecidos, em áreas dos calçadistas e de eletrodomésticos — setores estrategicamente situados no coração econômico urbano.
À luz desses acontecimentos, o Irã parece enfrentar um momento de tensão tectônica: as chamas da insatisfação doméstica encontram-se com a crescente complexidade das relações externas, enquanto os alicerces da diplomacia regional são testados. Em termos de estratégia, o regime executa um jogo de duas frentes — concessões mínimas internamente e sinais de firmeza militar externamente — numa tentativa de conter um redesenho de fronteiras políticas que, por ora, se desenha silencioso e perigoso.






























