Teerã anunciou a execução de um homem condenado por espionagem a favor de Israel, enquanto agrava-se o quadro doméstico de violência e se intensifica a retórica diplomática com Washington. O episódio revela, mais uma vez, a fratura entre as necessidades de segurança interna do regime e as pressões externas que redesenham a tática diplomática na região.
Segundo agências estatais e a notícia veiculada pela agência Isna, Hamidreza Sabet Esmailpour, detido em 29 de abril de 2025, foi executado após condenação por “espionagem e cooperação de inteligência” em favor de um serviço estrangeiro identificado como o Mossad. A execução ocorre num momento em que o governo busca demonstrar firmeza diante de acusações de infiltração e ameaças externas.
Paralelamente, a ONG Human Rights Activists in Iran, com sede nos Estados Unidos, atualizou os números das manifestações que abalam o país: 6.221 mortes confirmadas desde o início dos protestos — das quais 5.858 seriam manifestantes, incluindo 100 menores de 18 anos; 214 pertencentes a forças ligadas ao governo; e 49 civis não manifestantes. A organização informa ainda que 17.091 óbitos permanecem sob investigação, 42.324 pessoas foram presas e 11.017 ficaram gravemente feridas.
No plano diplomático, o ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araghchi, declarou à imprensa, na margem de uma reunião de governo, que “não houve contatos diretos entre mim e o enviado especial norte-americano, Steve Witkoff, nem pedimos tais conversas”. Araghchi enfatizou que alguns países terceiros atuam como mediadores e que Teerã mantém diálogo com esses intermediários. Reafirmou também que a “diplomacia apoiada por ameaças militares não produz resultados” e que qualquer negociação exigirá que os Estados Unidos deixem de lado “ameaças, exigências excessivas e questões ilógicas”, pois “as conversações necessitam de igualdade e respeito mútuo”.
Do lado regional, o ministro das Relações Exteriores da Turquia, Hakan Fidan, aconselhou Washington a iniciar negociações com o Irã, sugerindo começar pelo programa nuclear como pauta inicial e deixar outros temas para etapas subsequentes. Em entrevista à Al Jazeera, Fidan advertiu que apresentar múltiplas exigências de uma só vez poderia ser percebido por Teerã como humilhação, prejudicando a viabilidade de um acordo. A Turquia, que compartilha mais de 500 km de fronteira com o Irã, teme as consequências humanitárias e de segurança de um eventual conflito, incluindo um fluxo massivo de refugiados.
O cenário estratégico se complica com sinais contraditórios: enquanto, segundo declarações públicas, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que o regime iraniano busca diálogo, os Estados Unidos também deslocaram a fragata e o grupo do porta-aviões USS Abraham Lincoln para o Golfo, medida com clara função dissuasiva e de projeção de poder.
Em síntese, assistimos a um movimento decisivo no tabuleiro — onde ações punitivas internas, como a execução por suposta espionagem, se entrelaçam com a tônica externa de pressão e oferta de mediação. A tectônica de poder regional permanece tensa: Teerã exige condições de igualdade e respeito para qualquer negociação, enquanto aliados e adversários testam os alicerces frágeis da diplomacia. No curto prazo, a probabilidade de escalada exige que atores externos equilibrem dissuasão e canais discretos de negociação para evitar um redesenho de fronteiras políticas e humanitárias na região.






















