Em um movimento que ressoa nas estruturas da diplomacia internacional, duas saídas de destaque abalaram a credibilidade de uma das principais organizações de defesa dos direitos humanos, enquanto na periferia do conflito outra série de eventos reconfigura posições militares e humanitárias no terreno.
Dois integrantes que compunham a totalidade da equipe da Human Rights Watch (HRW) sobre Israel e Palestina — o chefe do time, Omar Shakir, e a assistente pesquisadora Milena Ansari — apresentaram suas demissões consecutivas após a direção da organização ter decidido bloquear um relatório que qualificava como “crime contra a humanidade” o ato de negar o direito de retorno aos refugiados palestinos.
Nas cartas de demissão, obtidas pela imprensa internacional, Shakir e Ansari afirmam que a retirada do relatório contrariou os procedimentos habituais de aprovação dentro da HRW e que esse gesto demonstra uma priorização do receio de repercussões políticas sobre o compromisso com o direito internacional. “Perdi a confiança na integridade do nosso método e no compromisso com a prestação de contas baseada em princípios, fatos e na aplicação da lei”, escreveu Shakir, declarando-se incapaz de continuar a representar a organização. As demissões ocorreram no momento em que o novo diretor executivo, Philippe Bolopion, iniciava seu mandato, aumentando o impacto institucional do episódio.
No plano militar, as Forças de Defesa de Israel (IDF) anunciaram a criação de uma nova companhia de combate composta exclusivamente por mulheres, que ficará destacada ao longo da fronteira com o Líbano. A unidade, integrante do Corpo de Defesa de Fronteira e subordinada à 91ª divisão regional “Galileia”, deverá ser estabelecida em março como parte de uma reorganização que, segundo o exército, visa aumentar capacidades e prontidão frente aos desafios daquela fronteira.
Na Faixa de Gaza, a Defesa Civil palestina informou que ataques aéreos israelenses mataram nove pessoas nesta manhã — entre elas três crianças — e feriram outras 31. O Exército israelense qualificou as ações como “ataques de precisão” realizados na esteira de um incidente em que soldados teriam sido atingidos, deixando um deles gravemente ferido.
Simultaneamente, relatos jornalísticos descrevem constrangimentos sofridos por civis que entraram em Gaza no primeiro dia de reabertura do posto de Rafah. Três mulheres — entre um grupo de 12 palestinos, composto majoritariamente por mulheres, crianças e idosos — disseram à Associated Press que foram vendadas, algemadas, interrogadas e ameaçadas por tropas israelenses, sendo submetidas a tratamento que qualificaram como humilhante antes de serem liberadas. O Exército israelense, questionado sobre as alegações, declarou não ter conhecimento de condutas inadequadas, maus-tratos, detenções ou apreensões por parte de seus agentes de segurança.
Esses episódios formam um mosaico tenso: a saída de especialistas da HRW remete ao debate sobre a independência e a coragem institucional na documentação de violações; a constituição de uma companhia feminina indica um reposicionamento tático no tabuleiro de fronteira com o Líbano; e os relatos de vítimas em Gaza e de tratamento de civis em Rafah realçam a fragilidade humanitária da população civil, cujo direito à proteção internacional permanece, na prática, incerto.
Do ponto de vista estratégico, assistimos a um redesenho de polos de influência — tanto no campo das organizações de direitos humanos quanto na organização militar israelense — que poderá alterar narrativas e alinhamentos diplomáticos nos próximos meses. O episódio interno da HRW é um movimento decisivo no tabuleiro da credibilidade: se as instituições que documentam a lei internacional cedem à interseção entre política e segurança, as fundações da responsabilização internacional ficam abertamente mais frágeis.
Num momento em que as tectônicas de poder tendem a redesenhar fronteiras invisíveis, a comunidade internacional enfrenta o desafio de manter alicerces sólidos para a proteção de civis, a verificação independente de fatos e a preservação do direito humanitário em contexto de guerra.
Marco Severini é analista sênior de geopolítica e estratégias internacionais da La Via Italia.






















