Por Marco Severini — Em um movimento que pode redesenhar o próximo capítulo da ordem política em Gaza, Hamas conduziu eleições para escolher um líder interino. Fontes citadas pela imprensa internacional indicam que a votação ocorreu simultaneamente na faixa de Gaza, na Cisjordânia ocupada e entre filiações do grupo em localidades no exterior. A escolha, cujo vencedor permanecerá no cargo por um ano, será um indicador-chave dos rumos que o movimento pretende adotar frente ao desafio da governança no pós-conflito.
Segundo informações de um alto funcionário palestino com acesso aos assuntos internos do movimento, a população de Gaza já teria votado de forma secreta. Não está, contudo, confirmado se o processo foi concluído em todas as frentes externas. Em termos geopolíticos, essa sucessão temporária ocorre quando mediadores — sobretudo os Estados Unidos e parceiros internacionais — discutem sobre quem administrará a reconstrução, o desarmamento dos grupos locais e a arquitetura institucional que sucederá o conflito.
Enquanto isso, no sul da Síria, as incursões de Israel nas províncias de Daraa e Quneitra se intensificaram. O Syrian Observatory for Human Rights reportou atividades regulares ao longo da linha de separação do Golan — ocupado por Israel desde 1967 — afirmando que, entre 17 e 19 de fevereiro, foram registradas ao menos dez incursões além da linha de desengajamento. Essas operações incluiram patrulhas, pontos de controle temporários, revistas a residências e detenções de civis.
Do lado de Damasco, o novo poder representado pelo líder Ahmad Sharaa mantém silêncio oficial sobre as ações, uma omissão que tem implicações estratégicas: o vácuo retórico pode ser entendido como recalibragem dos alicerces diplomáticos de um regime que mudou de rosto em dezembro de 2024. Em termos de realpolitik, movimentos militares repetidos na fronteira implicam, com frequência, em tentativas de redefinir esferas de influência sem um confronto aberto — um lance no tabuleiro que testa reações regionais e internacionais.
No mesmo palco multilateral, a comissária europeia para o Mediterrâneo, Dubravka Suica, registrou em X a presença de Gideon Sa’ar na sessão inaugural do Board of Peace, iniciativa promovida pelo presidente Donald Trump. Segundo Suica, o encontro abordou questões centrais para «estabilidade e segurança no Médio Oriente», com ênfase na necessidade de um compromisso internacional robusto para a reconstrução de Gaza. Entre as medidas defendidas estão o desarmamento do Hamas, o acesso sem restrições a ajuda humanitária e a reconstrução acelerada da infraestrutura social e econômica.
Suica reforçou que Hamas não terá papel na futura governança de Gaza e que a cooperação com a Autoridade Palestina será indispensável para implementar reformas e garantir sustentabilidade financeira — um ponto que exige, por sua natureza, convergência entre atores locais e internacionais, inclusive Israel.
Paralelamente, a Turquia reiterou disposição de contribuir com forças de estabilização em Gaza. O ministro das Relações Exteriores, Hakan Fidan, afirmou em Washington que o presidente Recep Tayyip Erdogan também estaria pronto a enviar tropas ao mecanismo internacional, caso as partes concordem — uma proposta que, em meses anteriores, havia encontrado objeção de Israel.
Por fim, relatórios sobre a capacidade de armamento regional ressaltam que o Irã tem potencial para produzir até 100 mísseis balísticos por mês, um ritmo que, segundo avaliações, aumentaria significativamente a massa crítica de armamento disponível e elevaria a tensão na região se mantido. Essa dinâmica de capacidade produtiva é um fator estrutural na tectônica de poder do Oriente Médio.
Em suma, assistimos a movimentos paralelos: uma recomposição interna do Hamas que pode alterar decisões táticas e estratégicas em Gaza; operações de segurança transfronteiriças que testam respostas diplomáticas; e iniciativas multinacionais, como o Board of Peace, que tentam construir alicerces institucionais para a reconstrução. No tabuleiro regional, cada lance — eleitoral, militar ou diplomático — redesenha fronteiras invisíveis de influência e risco.






















