Por Marco Severini – Em um pronunciamento de peso diplomático, o porta-voz do Hamas, Hazem Qassem, afirmou que o movimento está aberto à entrada de uma força de paz internacional em Gaza, desde que não constitua uma intromissão nos assuntos internos do território. A declaração indica uma disposição tátil para acomodar atores externos, mas traça limites claros aos alicerces da soberania local — um movimento que lembra, no tabuleiro da geopolítica, uma peça deslocada com cautela para proteger o rei.
No mesmo dia, milhares de palestinos da Cisjordânia atravessaram postos de bloqueio israelenses para se dirigirem a Jerusalém e participar da primeira oração de sexta-feira do Ramadã no complexo da mesquita de Al-Aqsa. As autoridades israelenses informaram que limitarão a participação dos fiéis vindos da Cisjordânia a 10.000 pessoas, mantendo regras de acesso similares às do ano anterior: entrada permitida a homens a partir de 55 anos, mulheres a partir de 50 anos e crianças menores de 12 anos somente acompanhadas por parente de primeiro grau. As restrições valem apenas para palestinos da Cisjordânia e não se aplicam aos árabes israelenses muçulmanos.
Segundo dados divulgados por Tel Aviv, cerca de 8.500 palestinos cruzaram hoje os postos de controle para chegar ao Monte do Templo e participar das orações semanais, marco que reforça a tensão latente entre práticas religiosas e controles de segurança. Em termos estratégicos, trata-se de uma prova de resistência civil e de como os limites de mobilidade funcionam como linhas de frente invisíveis entre jurisdições.
No plano mais amplo da insegurança regional, o Pentágono teria ordenado o esvaziamento de bases militares norte-americanas no Catar e no Bahrein, incluindo a base de Al Udeid e instalações que abrigam pessoal ligado à Quinta Frota, de acordo com reportagens do New York Times citando fontes da administração norte-americana. A movimentação — que resultou em ausência temporária de tropas norte-americanas em países como Iraque, Síria, Kuwait, Arábia Saudita, Jordânia e Emirados — é descrita como um redeploy preventivo diante de um possível confronto com Teerã, em que instalações poderiam ser alvos de mísseis.
Do Líbano chegam relatos de nova escalada: ataques israelenses no leste e sul do país teriam causado ao menos oito mortos, segundo autoridades libanesas, enquanto o Exército israelense afirma ter mirado combatentes do Hezbollah e de aliados palestinos do Hamas. Uma fonte do Hezbollah citada pela AFP informou que um líder militar do grupo apoiado pelo Irã estaria entre os mortos em ataques no vale da Bekaa. A agência estatal National News Agency relatou um balanço inicial de seis mortos e mais de 25 feridos na região.
O cenário descrito não é apenas uma sucessão desconexa de episódios, mas um redesenho contínuo de eixos de influência: movimentos militares, posturas políticas e deslocamentos civis que se interconectam como peças filtrando pressão através de uma placa tectônica de poder regional. A oferta do Hamas quanto à presença de uma força de paz abre uma janela diplomática que pode ser usada para estabilizar pontos críticos, desde que as condições – e as garantias de não interferência – sejam cuidadosamente negociadas. Nessas circunstâncias, cada iniciativa internacional funcionará como uma arquitetura onde a sustentação e a submissão de poderes serão examinadas com precisão.
Enquanto os fiéis realizam suas orações e as capitais reavaliam posições militares, o centro da questão permanece o mesmo: como construir mecanismos de segurança que garantam proteção sem fragilizar as oscilações internas que definem a governança local? A resposta exigirá, como em uma partida de xadrez entre Estados, movimentos calculados, alianças revalidadas e, acima de tudo, visão estratégica de longo prazo.






















