Por Marco Severini — Em um movimento que combina logística humanitária e pressão diplomática, a ONG espanhola Open Arms anunciou sua participação na missão da Global Sumud Flotilla, com partida prevista para 12 de abril do porto de Barcelona. A embarcação principal seguirá em direção ao Mediterrâneo oriental e à costa da Faixa de Gaza, com a missão declarada de entregar ajuda essencial e apoiar esforços de reconstrução na região.
A iniciativa, segundo comunicado da própria Open Arms, tem por objetivo “romper o bloqueio ilegal de Israel” e garantir o desembarque de assistência humanitária e de voluntários especializados, incluindo equipes sanitárias e técnicos. A coalizão reúne movimentos internacionais como o Global Movement to Gaza e o People’s Flotilla Movement, além do apoio de centenas de organizações civis. A ONG recordou que, no Mediterrâneo, afirma ter resgatado mais de 70 mil pessoas fugindo de guerras e pobreza, qualificando a operação como uma iniciativa “urgente e não simbólica” e convidando outras entidades a aderirem.
No mesmo eixo político, Azzam al-Ahmad, secretário-geral do comitê executivo da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), concedeu entrevista ao jornal egípcio Shorouk News em que rejeita categoricamente a caracterização de Hamas como organização terrorista. “Tutti i discorsi sul disarmo di Hamas e la sua definizione come organizzazione terroristica sono inaccettabili. Hamas non è un’organizzazione terroristica”, afirmou al-Ahmad, ressaltando que o movimento faz parte do amplo movimento nacional palestino.
Al-Ahmad explicou que a OLP mantém um diálogo contínuo com Hamas e abriu canais de contato também com a Jihad Islâmica, com vistas a possíveis adesões ao organismo de coordenação palestino. A figura política afirmou ainda que as eleições municipais convocadas para abril poderão permitir a participação de membros de Hamas e da Jihad Islâmica sem a exigência de adesão imediata ao programa da OLP — inclusive sem a obrigatoriedade do reconhecimento de Israel — o que constitui um movimento estratégico no tabuleiro interno palestino.
Em outro episódio que alimenta a tensão regional, o Ministério das Relações Exteriores de Israel divulgou, via rede X, uma nota de repúdio à decisão do Parlamento da Jordânia de suprimir referências a Israel das atas parlamentares. O ministério qualificou a medida como contrária ao espírito do tratado de paz que vigora entre os dois países há mais de três décadas, pedindo que seja condenada por aqueles empenhados na construção de uma região de tolerância e entendimento.
Por fim, fontes militares libanesas acusaram Israel de ter atacado o perímetro de uma posição militar no sul do Líbano, episódio que se soma à carga já elevada de atritos transfronteiriços. Em conjunto, os eventos compõem um mosaico de iniciativas civis e manobras políticas que redesenham, passo a passo, a tectônica de poder na região.
Como analista, vejo esses acontecimentos como jogadas simultâneas em um tabuleiro de xadrez diplomático: uma flotilha humanitária que testa bloqueios e narrativas; um organismo político que busca ampliar sua hegemonia interna através de movimentos de inclusão; e sinais públicos e protocolares que recalibram alianças e rancores. A estabilidade regional depende hoje tanto de corredores de ajuda concreta quanto da reconstrução de alicerces frágeis da diplomacia — um equilíbrio que exige paciência estratégica e capacidade de negociação entre atores com agendas profundamente divergentes.





















