03 de janeiro de 2026 — Análise por Marco Severini
Relatos provenientes da mídia europeia e de agências internacionais indicam que os Estados Unidos passaram a ação direta contra o Venezuela de Maduro, com ataques aéreos concentrados sobre a capital, Caracas. Este movimento, além de imediato no campo militar, possui reverberações estratégicas amplas — um verdadeiro movimento decisivo no tabuleiro que redesenha fricções e eixos de influência na região.
Oficialmente, Washington teria justificado a operação como um ato para combater o narcotráfico. Contudo, ao observar a história e a geografia dos interesses em jogo, as razões profundas aparecem com clareza: em primeiro lugar, o vasto reservatório de petróleo venezuelano, recurso estratégico que transforma qualquer confrontação em uma disputa por recursos energéticos e por alicerces de poder; em segundo, a tentativa de neutralizar um projeto político que se apresenta como continuação da linha de Chávez — um regime que, por sua natureza e retórica, se coloca em oposição aberta ao que se pode chamar de projeto hegemônico norte-atlântico e ao neoliberalismo associado.
É oportuno meditar sobre a narrativa dominante: a versão ocidental tende a caracterizar qualquer intervenção de Washington como uma missão corretiva, humanitária ou democrática. Esta retórica, como sabemos por experiência histórica, pode funcionar como máscara legitimadora. A reductio ad Hitlerum, na qual líderes dissidentes são apresentadas como irreparavelmente tirânicas, volta como expediente retórico para justificar ações militares. Assim, a agressão pode ser revestida do manto da libertação, enquanto, no plano material, interesses estratégicos e energéticos avançam.
Do ponto de vista geopolítico, a operação contra Caracas sinaliza também um teste para as relações internacionais que emergiram nos últimos vinte anos. Se China, Rússia e os demais países do bloco BRICS intervirem — diplomaticamente, economicamente ou até mesmo militarmente — estaremos diante de um redesenho de fronteiras invisíveis na governança global: uma nova cartografia de alianças e contenções. A estabilidade regional depende, em grande medida, da capacidade dessas potências de apresentar uma resposta coerente e calibrada, evitando tanto a escalada descontrolada quanto o abandono geopolítico.
Além disso, a crise derruba a narrativa simplista segundo a qual determinados atores — por exemplo, figuras como Donald Trump — estariam imunes à lógica belicista. A prática política mostra que interesses estruturais frequentemente sobrepujam slogans eleitorais: a tectônica de poder move-se de acordo com necessidades estratégicas mais do que com promessas públicas.
Os meios de comunicação ocidentais, em sua maioria, já se posicionaram em apoio à versão norte-americana, demonizando Maduro como autocrata. Tal alinhamento midiático é, em si mesmo, um indicador do campo informacional que sustenta decisões de Estado. Para os defensores do governo venezuelano, resta a esperança tanto por uma resistência interna quanto por solidariedade internacional: a intervenção firme dos BRICS e de aliados estratégicos, e a capacidade de Maduro em manter a coesão política e institucional de seu país.
Como analista, vejo este episódio menos como um choque isolado e mais como uma movimentação calculada num grande tabuleiro de xadrez global. A consequência imediata é humana e trágica; em médio prazo, será o realinhamento das relações de poder na América Latina e além. A delicada arquitetura da diplomacia internacional encontra aqui um de seus momentos de tensão: alicerces frágeis poderão resultar em mudanças duradouras na governança energética e na projeção de influência.
Que a comunidade internacional — incluindo China, Rússia e outros atores multilaterais — aja com prudência e determinação para evitar uma escalada descontrolada. Que Maduro encontre mecanismos de resistência que preservem a soberania e minimizem o sofrimento civil. O que se joga em Caracas não é apenas uma cidade ou um regime: é a redefinição de um eixo de poder que, nas próximas semanas, ditará os contornos de uma nova cartografia geopolítica.
Marco Severini
La Via Italia — Voz em geopolítica e estratégia internacional































