Por Marco Severini — A tensão entre Israel e o Irã percorre, nas últimas décadas, uma trajetória que lembra um longo jogo de xadrez: movimentos discretos, sacrifícios calculados e, finalmente, uma série de jogadas que transformaram uma guerra por procuração numa confrontação direta de alta intensidade. A evolução desse confronto pode ser lida em etapas claras — da chamada guerra nas sombras à escalada aberta, com a sombra do risco nuclear projetando-se sobre todo o tabuleiro.
2010–2023: a guerra nas sombras
Durante anos o conflito foi conduzido nas entrelinhas da geopolítica: operações clandestinas para atrasar o programa nuclear de Teerã, campanhas de desinformação e ataques cibernéticos foram a marca desse período. O vírus Stuxnet, que saboteou centrífugas em Natanz, e uma série de assassinatos seletivos de cientistas do programa nuclear ilustram uma estratégia de erosão silenciosa da capacidade iraniana. Em 2018, relatos indicam que um arquivo nuclear iraniano foi exfiltrado da capital, contendo planos e documentação sensíveis. Em 2020, a morte de Mohsen Fakhrizadeh — considerado o cérebro do programa — aprofundou a escalada de retaliação e desconfiança. Entre 2021 e 2023, o confronto expandiu-se ao mar, com ataques a cargueiros no Golfo Pérsico e no Mar Vermelho, ampliando o alcance do conflito para rotas comerciais e logísticas.
2024: o princípio do confronto aberto
No início de abril de 2024, o cenário mudou de maneira substancial: um ataque ao consulado iraniano em Damasco, que resultou na morte de altos oficiais dos Pasdaran, foi seguido, dias depois, pela operação “Promessa Vera”, durante a qual o Irã lançou cerca de 300 drones e mísseis contra Israel, todos interceptados. A resposta israelense incluiu um ataque cirúrgico próximo à base aérea de Isfahan, atingindo sistemas de defesa e radar. Ao longo do mesmo ano, a sequência de ações — incluindo a morte de Ismail Haniyeh em Teerã e o lançamento por parte iraniana de cerca de 180 mísseis balísticos em retaliação — consolidou o padrão de represálias diretas. A operação israelense “Giorni del Pentimento” atingiu múltiplos alvos militares em território iraniano, elevando o conflito a um novo patamar.
2025: “Ruggito del Leone” e os doze dias de conflito
Em 13 de junho de 2025, a ofensiva denominada “Ruggito del Leone” marcou uma campanha aérea intensa contra sítios nucleares e militares no Irã, incluindo Natanz e Isfahan. A resposta iraniana veio na forma de ondas de drones e mísseis. A entrada dos Estados Unidos com a operação “Midnight Hammer”, que atingiu instalações nucleares iranianas em 22 de junho, ampliou a tectônica de poder na região. Confrontos subsequentes, incluindo ataques iranianos a bases americanas no Qatar e no Iraque, só cessaram com um cessar-fogo mediado pelos EUA em 24 de junho, encerrando 12 dias de hostilidades intensas.
2026: nova fase de escalada
A data de 28 de fevereiro de 2026 assinala um novo ponto de inflexão: ataques coordenados dos Estados Unidos e de Israel contra alvos iranianos provocaram respostas iranianas com rajadas de mísseis contra Israel e ataques a bases americanas espalhadas pela região. O risco de uma escalada adicional, e especialmente o perigo associado ao espectro nuclear, permanece no centro da análise estratégica. Em termos de arquitetura da segurança, estamos diante de alicerces frágeis cujo colapso poderia redesenhar fronteiras de influência no Oriente Médio.
Do ponto de vista de governação estratégica, a prioridade imediata é a contenção: evitar que o conflito transite de uma série de operações militares limitadas para um conflito aberto de caráter regional ou — na pior das hipóteses — que envolva capacidades nucleares. Em linguagem de xadrez, trata-se hoje de evitar o xeque-mate por escalada: cada poder beligerante calcula ganhos e perdas, enquanto atores externos calibram movimentos para preservar algumas linhas de comunicação e minimizar rupturas sistêmicas.
Esta crônica da escalada confirma que, quando a guerra deixa as sombras, o tabuleiro muda com rapidez e brutalidade. A estabilidade regional depende agora de decisões que ponderem força e contenção, técnica e diplomacia, em equilíbrio precário.






















