Por Marco Severini — A queda pública do grupo que levava o nome de Prigozhin não significou o fim da estratégia russa de projeção de força extraestatal. Ao contrário: sobre as cinzas da Wagner nasceu um novo instrumento mais institucionalizado e com finalidades híbridas. Em novembro de 2023 foi formalmente constituído o Afrika Korps (Afrikanskiy Korpus), uma estrutura enquadrada nas forças armadas russas, destinada a coordenar as operações de Moscou em África e a conservar capacidades que antes eram concentradas numa companhia militar privada.
O desenho orgânico inicial previu até 12 brigadas pluriarma, com um efetivo potencial que excederia 40 mil homens, muitos deles oriundos da ex-PMC. A nova cadeia de comando foi colocada sob o viceministro da Defesa Junus-bek Evkurov e, operacionalmente, sob o comando do Major‑General Andrey Averyanov, figura ligada ao GRU e apontada por alguns relatórios como implicada na saga que levou à morte de Prigozhin. Hoje, portanto, o comando operacional que antes era privilégio da Wagner encontra-se, em grande medida, sob a égide do GRU, com o FSB assumindo papeis de gestão operacional em paralelo.
O que emergiu nas últimas investigações, incluindo artigo recente do Financial Times, é um deslocamento de funções: elementos ex‑Wagner são agora utilizados para criar redes de recrutamento digital e identificar agentes «usa e getta» em países europeus. O método é sofisticado e de baixa rastreabilidade: canais criptografados como Telegram, plataformas de gaming e redes sociais funcionam como cartografia inicial para encontrar e radicalizar perfis vulneráveis, frequentemente cidadãos residentes nos próprios países‑alvo.
O objetivo não é apenas causar dano físico ou logístico, mas executar uma operação de longo fôlego de guerra cognitiva. Sabotagens de baixo perfil, com vestígios mínimos, produzem efeitos políticos desproporcionais: falhas em infraestruturas críticas, pequenas explosões, incêndios controlados ou cortes elétricos que, ao se somarem, realçam a suposta incapacidade das autoridades nacionais — e minam a confiança pública — exatamente quando governos apresentam agendas anti‑Kremlin. É um movimento decisivo no tabuleiro da influência: erosão de legitimidade por meios assimétricos.
Na entrevista ao General Nicola Cristadoro, reproduzida e analisada aqui, foram identificados perfis recorrentes entre os recrutados: indivíduos economicamente fragilizados, jovens com baixa ancoragem social, expatriados desorientados, ou atores subculturas online com repertório violentista. Os canais escolhidos privilegiam anonimato e mensagens que apelam a recompensas financeiras ou à narrativa conspirativa. A instrução para atos de sabotagem é deliberadamente simplificada, de modo a reduzir a necessidade de comando direto e a dificultar a atribuição.
Quais as vulnerabilidades europeias que esse mosaico explora? A interdependência de redes energéticas e de transporte, sistemas de controlo industrial legados, lacunas legislativas entre jurisdições e estruturas de coordenação interagências ainda fragmentadas. A tectônica de poder que se desloca é, portanto, menos visível: não é uma fronteira redesenhada no mapa, mas um conjunto de alicerces frágeis na diplomacia e na segurança doméstica.
As contromedidas delineadas por Cristadoro e analisadas por mim seguem duas linhas complementares: fortalecimento da partilha de inteligência entre NATO e UE — inclusive com células interagências permanentes — e elevação da resiliência civil. Isso inclui endurecimento de infraestruturas críticas, protocolos rápidos de resposta local, campanhas de literacia digital que reduzam a superfície de recrutamento e um quadro jurídico‑operacional que acelere investigações transfronteiriças. Em termos estratégicos, trata‑se de devolver ao inimigo a imprevisibilidade: transformar seu ataque cognitivo em custo político e operacional.
Em suma, o Afrika Korps representa um redesenho da capacidade russa de projetar poder por meios híbridos — um movimento que combina recursos estatais e redes veteranas de combate para agir com mínima assinatura. Para os Estados europeus, a pergunta estratégica não é apenas como impedir o próximo incidente, mas como reconstruir os alicerces da confiança pública e da coordenação política para que, no tabuleiro diplomático, a jogada adversária perca eficácia.
Nota final: reconhecer a emergência desse padrão de operações exige leitura histórica e cartográfica — entender onde se movem as peças e porque se busca corroer estruturas aparentemente desconectadas. Só assim será possível responder com medidas que sejam, ao mesmo tempo, técnicas e políticas; tácticas e estruturais.






















