O enigmático chefe dos serviços de inteligência ucranianos, Budanov, conhecido como o homem “sem sorriso”, foi nomeado pelo presidente Zelensky para chefiar a administração presidencial, em uma mudança que marca profunda reorganização política no país. Aos 38 anos, Budanov deixa o posto de comandante da inteligência militar (GUR), função que exerceu por mais de cinco anos e na qual conduziu operações audaciosas contra a Rússia.
O anúncio da nomeação ocorreu junto à decisão de substituir o ministro da Defesa — segundo comunicado oficial — com o jovem Mykhailo Fedorov, até então titular da Transformação Digital, assumindo novas responsabilidades em um momento sensível da guerra e de investigações internas. A troca no comando da administração presidencial sucede a uma investigação de corrupção que envolve o poderoso Andriy Yermak, até então chefe do gabinete.
Budanov tornou-se figura pública a partir da invasão russa em grande escala, mas já era conhecido entre círculos militares e de inteligência. Nascido em Kiev, iniciou sua formação no instituto de formação de paraquedistas em Odessa. Foi deslocado para operações em 2014, quando a Rússia fomentou o conflito separatista no leste da Ucrânia. Entre as ações atribuídas a sua unidade está um raid de comando em território da Crimeia ocupado em 2016, no qual agentes russos foram mortos.
Discreto sobre detalhes operacionais, Budanov revelou poucos aspectos de sua carreira: foi ferido em combate por três vezes, incluindo um estilhaço próximo ao coração e um tiro no cotovelo que lhe deixou rigidez no braço direito. A GUR informou que ele foi alvo de mais de dez atentados contra sua vida e, em 2019, sobreviveu à explosão do seu carro em Kiev, ataque imputado à espionagem russa na ocasião.
Antes da invasão de fevereiro de 2022, Budanov já havia destacado, em posições e alertas, a possibilidade de um ataque em larga escala da Rússia — previsões que muitos consideraram lúcidas quando os combates se intensificaram. Em eventos internacionais, como uma conferência em setembro de 2023 em Kiev, recebeu uma longa ovação de pé e foi alvo de atenção entre funcionários e especialistas, que buscavam registrar imagens ao seu lado.
Na imprensa e entre apoiadores, é descrito como um estrategista da chamada “guerra assimétrica”: operações com forças especiais, inteligência de campo e uso de tecnologias que visam desgastar a capacidade e a moral das tropas adversárias. Algumas previsões mais ousadas, como uma entrada ucraniana na Crimeia já em 2023, não se concretizaram e a frente de combate permaneceu relativamente estática em muitos setores desde o final de 2022.
O perfil de Budanov — rígido, focado e pouco afeito a demonstrações públicas de sorriso — vai agora transitar para o centro do poder civil de Kiev. A nomeação para chefiar a administração presidencial coloca-o como interlocutor direto do presidente e responsável por articular políticas e coordenação entre esferas militares e governamentais em um momento de pressão máxima.
Analistas apontam que sua experiência em inteligência e operações encobertas pode reforçar a estratégia de defesa e comunicação do governo, ao mesmo tempo em que levanta questões sobre a transição de um operador de campo para um papel político e administrativo de alta visibilidade.
Budanov permanece uma figura controversa para Moscou e um símbolo de resistência para Kiev, uma figura cuja trajetória — entre combates, ferimentos e decisões estratégicas — moldou parte da resposta ucraniana à invasão russa.





























