Por Marco Severini — Em desenvolvimento, as recentes ações militares e diplomáticas desenham um novo movimento no tabuleiro europeu. Na madrugada do dia 21 de fevereiro houve um ataque ao complexo industrial Votkinsky, na Udmurtia, fábrica russa responsável pela produção dos mísseis Iskander, Topol-M e do sistema Oreshnik. Fontes locais, citadas pela Ukrainska Pravda através de canais Telegram e grupos públicos, relatam danos a lojas próximas e relatos de feridos. O governador regional confirmou que “uma das estruturas da república” foi atingida por drones, acrescentando que há danos e pessoas feridas.
As consequências logísticas foram imediatas: operações em vários aeroportos russos, inclusive o de Izhevsk, foram temporariamente suspensas. Circulou também informação não verificada sobre um possível ataque com mísseis de cruzeiro Flamingo contra o mesmo complexo. É relevante registrar que o estaleiro Votkinsky está sujeito a sanções internacionais — Estados Unidos, Reino Unido, União Europeia, Suíça, Austrália, Japão e Ucrânia — e que fica a quase 1.500 km da fronteira com a Ucrânia, o que altera o senso comum sobre alcance e logística de ataques transfronteiriços.
No mesmo período, a Rússia voltou a bombardear Odesa durante a noite. Segundo reportagens da RBC-Ucrânia, drones russos danificaram infraestrutura urbana e vários edifícios residenciais, provocando incêndios; entre os alvos atingidos estão quatro prédios residenciais e uma escola. A imprensa local destaca, com cautela, o impacto humanitário e o potencial de escalada simbólica ao atingir centros urbanos e escolas.
Em Moscou e em canais pró-russos, emergem vozes que colocam o diálogo como inevitável. O ex-primeiro-ministro ucraniano Mykola Azarov declarou, em entrevista à TASS, que os “negócios com a Ucrânia devem progredir, mas qualquer compromisso deve atender aos objetivos russos”. É uma posição que expõe a tensão entre pragmatismo e objetivos de guerra — um lembrete de que, no tabuleiro da diplomacia, cada concessão é avaliada contra o que se entende por segurança e interesses nacionais.
Em Bruxelas, o Coreper (Comitê dos Representantes Permanentes) continuou a discutir o 20º pacote de sanções da UE contra a Rússia. A versão revista do texto foi considerada um avanço pela maioria dos Estados-membros, embora persistam reservas de alguns participantes. A Presidência cipriota continuará as consultas com o objetivo declarado de fechar um acordo até 24 de fevereiro. Nesse contexto institucional, a participação da primeira-ministra italiana Giorgia Meloni na reunião dos chamados “volenterosi” sinaliza a disposição de Roma em alinhar-se com um eixo de influência mais coeso na resposta à crise.
Do ponto de vista estratégico, temos aqui uma dupla movimentação: operações militares que testam limites logísticos e simbólicos, e manobras diplomáticas que buscam preservação de coesão dentro da UE. As sanções são, em essência, peças num jogo mais amplo de pressão — não apenas económica, mas também política — cujo objetivo é redesenhar influências sem provocar um colapso sistêmico. A participação italiana na reunião dos “volenterosi” funciona como um lance de reconhecimento: reafirma presença e influência de Roma na articulação de futuras ações coletivas.
Para analistas de política externa, a lição é clara: a tectônica de poder entre Moscou, Kiev e os parceiros ocidentais continua a evoluir por camadas — militares, legais e diplomáticas. Manter a coesão europeia enquanto se evita escalada direta é o desafio central dos próximos dias. Em termos práticos, acompanhar a finalização do 20º pacote de sanções e as próximas rodadas de negociações dará o mapa mais nítido dos próximos movimentos no tabuleiro.






















