Rússia e Ucrânia movem-se agora em direções que redesenham, mais uma vez, os alicerces frágeis da diplomacia europeia. Na manhã desta terça-feira, a tensão escalou com ataques noturnos que atingiram áreas de Kiev e da região de Kharkiv, paralelamente a movimentações diplomáticas e militares em curso que incluem conversas trilaterais nos Emirados Árabes Unidos (Abu Dhabi, 4-5 de fevereiro) e propostas sobre o futuro do tratado Nuovo START.
O porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, informou à Tass que a iniciativa russa para estender as restrições do tratado Nuovo START continua “sob a mesa” — uma oferta que, segundo ele, foi apresentada há meses, mas ainda não obteve resposta dos Estados Unidos. O ponto é crítico: trata-se de um movimento que, no tabuleiro estratégico, busca preservar opções de dissuasão enquanto se mantém a pressão política.
Em paralelo, o Financial Times revelou que a Ucrânia, em coordenação com parceiros europeus e norte-americanos, fechou um plano multinível para monitorar e fazer cumprir um eventual cessar‑fogo com a Rússia. A arquitetura desse plano prevê uma primeira fase com o destacamento de uma força de dissuasão liderada pela Europa, apoiada por logística e inteligência dos EUA. Em caso de violações reiteradas, uma fase subsequente acionaria “Voluntários” e, como último recurso, uma resposta militar coordenada com envolvimento direto norte-americano.
No terreno, o primeiro balanço dos ataques noturnos ucranianos contra a região russa de Kharkiv aponta para uma vítima fatal e cinco feridos, conforme declarou o governador regional Oleg Sinegubov nas redes sociais: a vítima seria uma mulher de 85 anos. Ao mesmo tempo, Moscou retomou bombardeios contra infraestruturas energéticas ucranianas, provocando apagões e deixando sem aquecimento mais de 1.100 edifícios residenciais em Kiev — onde as temperaturas rondam os -20 °C, segundo autoridades locais.
O ministro do Desenvolvimento, Oleksiy Kuleba, reportou no X que “o resultado desses ataques é que mais de 1.100 edifícios residenciais ficaram sem aquecimento”, acusando a Rússia de mirar deliberadamente nas condições básicas de subsistência da população civil. Autoridades ucranianas estimam que cerca de cinquenta cidades e aldeias estejam agora sem energia elétrica.
No plano político-diplomático, o presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou na Casa Branca que o processo de resolução do conflito “está indo bem” e sugeriu que notícias positivas podem surgir em breve, qualificando o processo como difícil. A declaração surge num momento em que as hostilidades aumentam e as negociações mantêm para já uma fina expectativa.
O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, reagiu no Telegram com uma avaliação dura: segundo ele, a Rússia “aproveita os dias mais frios do inverno para aterrorizar a população” em vez de optar pela diplomacia. Zelensky ressaltou a necessidade urgente de fornecimento de mísseis para sistemas de defesa aérea e de proteção imediata à vida quotidiana como prioridade.
Num registro analítico, o quadro revela uma tectônica de poder em movimento: por um lado, ofertas estratégicas como a extensão do Nuovo START — que funcionariam como um freio institucional — permanecem condicionadas à resposta ocidental; por outro, no tabuleiro operativo, ataques à infraestrutura civil são jogadas capazes de forçar concessões políticas ao custo de aprofundar a crise humanitária. A conjunção desses vetores desenha um momento decisivo, em que a estabilidade regional depende tanto de decisões diplomáticas em salas fechadas quanto de capacidades materiais de defesa e dissuasão.
À luz desses fatos, é evidente que os próximos dias serão cruciais: as negociações trilaterais em Abu Dhabi, o eventual posicionamento norte-americano sobre o Nuovo START e a implementação do plano multinível de monitoramento do cessar‑fogo constituirão movimentos determinantes no grande jogo geopolítico que se desenrola sobre a Ucrânia.






















