Por Marco Severini — Em um movimento que redesenha, de forma abrupta, as coordenadas da técnica de poder no hemisfério ocidental, as últimas horas mostraram um episódio de alta intensidade geopolítica: uma ação militar norte-americana nas imediações de Caracas que, segundo declarações públicas do ex-presidente Donald Trump, teria resultado na captura de Maduro pela Delta Force. Fontes alternativas indicam, porém, que o desfecho poderia ter sido uma saída negociada do presidente venezuelano — uma rendição encenada para preservar aparências e evitar um vácuo de autoridade.
O personagem central — Nicolás Maduro, sucessor político de Hugo Chávez e líder do projeto chavista desde 2013 — voltou a ser o alvo declarado das políticas mais duras do establishment norte-americano. As acusações que o cercam vão de narcotráfico até investigações perante a Corte Penal Internacional por supostos crimes contra a humanidade. É sobre esse tabuleiro, onde cada peça tem valor estratégico, que se desenham hoje as hipóteses sobre o pós‑Maduro.
Na narrativa oficial de Washington, a operação encontra justificativa na luta contra o narcotráfico. Contudo, análises informadas destacam que essa narrativa é insuficiente para explicar o robusto desdobramento naval e aéreo observado — catorze navios de guerra, destróieres, submarinos e contingentes terrestres — que convergem para um objetivo mais amplo: o controle de recursos e a exclusão de influências externas consideradas indesejáveis, sobretudo de Rússia, China e Iran.
O motivo material é claro e direto: o petróleo. Com cerca de 18% das reservas globais conhecidas, a Venezuela permanece um apêndice estratégico no mapa energético mundial. Ao mesmo tempo, levantamentos apontam que apenas uma fração marginal do fluxo de fentanyl que afeta os Estados Unidos — estimada por algumas fontes em torno de 5% — teria origem venezuelana, fragilizando a narrativa de emergência antidrogas como causa exclusiva da intervenção.
No tabuleiro pós‑choque, emergem ao menos duas trajetórias plausíveis. A primeira seria a conformação de um governo interino de transição com elementos da continuidade chavista, possivelmente liderado por figuras como a vice‑presidente Delcy Rodríguez, que permitiria uma transição controlada e a manutenção de engrenagens estatais. A segunda possibilidade é a escalada da oposição moderada‑conservadora representada por María Corina Machado, recentemente catapultada a protagonismos internacionais — incluindo, segundo reportagens, um Prêmio Nobel da Paz 2025 que já provoca contestações judiciais e políticas.
O setor privado já pronunciou intenções concretas: o CEO da Chevron, durante eventos em fóruns de investimento, não apenas reconheceu a magnitude dos recursos geológicos venezuelanos, mas prometeu apoio técnico para uma reconstrução econômica que beneficiaria capitais ocidentais. Machado, por sua vez, tem sinalizado propostas de privatização das petrolíferas estatais, uma plataforma capaz de mobilizar investimentos externos mas também de exacerbar tensões sociais e regionais.
Ao mesmo tempo, vozes dissidentes — como a ação judicial de Julian Assange contra a atribuição do Nobel a Machado — ilustram que o campo simbólico e jurídico internacional será palco de disputa tão intensa quanto o campo militar. Em outras palavras: vivemos um momento em que o movimento decisivo no tabuleiro não se resume às forças armadas, mas se estende à diplomacia, aos tribunais e ao mercado de capitais.
Do ponto de vista estratégico, o cenário ideal para potências externas seria um governo comprador de estabilidade e integrável ao sistema de investimentos ocidentais; para potências regionais e aliados de Caracas, o desafio será preservar esferas de influência e evitar a erosão de bases logísticas e militares. O equilíbrio resultante dependerá de negociações discretas, dos alicerces frágeis da diplomacia multilateral e das próximas jogadas no tabuleiro das grandes potências.
Como analista que observa a tectônica de poder, cabe ressaltar a necessidade de cautela: intervenções rápidas produzem vácuos políticos que são preenchidos por contingências imprevisíveis. A reconstrução de Caracas exigirá não apenas capital, mas arranjos políticos capazes de garantir segurança, legitimidade e governabilidade — elementos que não se improvisam.































