Por Marco Severini, Espresso Italia. — Em um movimento que redesenha, silenciosamente, linhas de influência no tabuleiro internacional, iniciam-se hoje em Abu Dhabi as conversações trilaterais entre Rússia, Ucrânia e Estados Unidos. Fontes do gabinete do presidente Volodymyr Zelensky indicam que a primeira sessão ocorrerá ainda esta noite, com um segundo round previsto para amanhã, numa tentativa de identificar canais de desescalada e acordos práticos sobre o terreno.
O ponto-chave da agenda, segundo relatórios de agências internacionais, é o controle territorial no leste ucraniano — sobretudo a região do Donbas — que permanece o nó estratégico e político mais difícil de ser desatado. Em termos de diplomacia de alta precisão, trata-se de um movimento decisivo no tabuleiro: negociar o Donbas equivale a redesenhar fronteiras invisíveis entre interesses militares e garantias de segurança.
Enquanto aguarda o agendamento formal, Zelensky comunicou que espera que o ex-presidente Donald Trump fixe data e local para a assinatura de um acordo sobre as garantias de segurança oferecidas pelos Estados Unidos. A interlocução transatlântica mantém, assim, sua face bilateral, paralelamente ao diálogo tripartite em Abu Dhabi.
Da parte americana, a delegação inclui emissários próximos a Trump, entre eles Steve Witkoff e Jared Kushner, além do secretário do Exército Dan Driscoll. Representando Kiev, participam figuras centrais como Rustem Umerov, Kyrylo Budanov, o conselheiro diplomático Serhii Kyslytsia e o chefe do Estado‑Maior ucraniano Andrii Hnatov. Pela Rússia, ao lado do enviado Kirill Dmitriev, estará o chefe da inteligência militar, o almirante Igor Kostyukov.
O ministro das Relações Exteriores da França, Jean-Noël Barrot, enfatizou que, inevitavelmente, a Europa terá de abrir um capítulo de diálogo com a Rússia sobre a arquitetura da segurança no continente após o término das hostilidades. A observação aponta para a necessidade de reconstruir alicerces frágeis da diplomacia europeia, mesmo que esse processo só possa ocorrer quando novas diretrizes russas forem definidas.
O encontro em Abu Dhabi, segundo analistas, serve também como termômetro para avaliar se as partes aceitam, ao menos tacitamente, parâmetros mínimos de estabilização territorial. O tema é técnico e político: controle de territórios, garantias militares, mecanismos de verificação e compromissos internacionais — uma combinação que demanda precisão de xadrez e paciência institucional.
Paralelamente às negociações, um episódio militar reafirma a volatilidade do contexto. Um ataque com drone incendiou um depósito de petróleo na cidade russa de Penza, sem registro de vítimas, conforme informou o governador Oleg Melnichenko. O Ministério da Defesa russo relatou a interceptação de pelo menos 12 drones durante a noite, incluindo um sobre a região atingida. Imagens nas redes sociais mostram colunas de fogo a 618 km da linha de frente; a Ucrânia, até o momento, não comentou oficialmente os relatos.
O cenário em Abu Dhabi espelha a atual tectônica de poder: enquanto se tenta negociar linhas de controle no Donbas, ações militares pontuais continuam a moldar os incentivos à negociação. A diplomacia trabalha, como um jogador veterano, para converter vantagem operacional em estabilidade política sustentada. O desfecho imediato permanece incerto, mas o que está em jogo é claro: a reconfiguração de garantias e espaços de segurança na Europa, com reverberações que irão além das fronteiras do conflito.






















