Em um movimento que mistura diplomacia pública e manobra estratégica, iniciou-se em Abu Dhabi o segundo round de conversações em formato trilateral entre Ucrânia, Rússia e Estados Unidos. O processo, segundo o secretário do Conselho de Segurança e Defesa ucraniano, Rustem Umerov, começou com sessões plenárias e seguirá com trabalhos em grupos separados voltados a temas específicos e técnicos.
Umerov informou que a delegação ucraniana atua com “diretivas claras” do presidente Volodymyr Zelenskyy, buscando uma paz “digna e duradoura” e prometendo atualizar o chefe de Estado a cada etapa dos diálogos. A chegada da delegação ucraniana a Abu Dhabi foi confirmada pelo porta-voz da Presidência de Kiev.
No tabuleiro mais amplo da geopolítica, a cúpula paralela entre os líderes de Moscou e Pequim oferece sinais complementares e, ao mesmo tempo, contraditórios. Em videoconferência com o presidente Xi Jinping, o presidente Vladimir Putin qualificou a aliança sino-russa como um “fator vitale di stabilizzazione” — nas palavras repercutidas pela agência russa Tass — e assegurou a continuidade do aprofundamento dos laços independentemente da conjuntura internacional. A cooperação no setor energético foi explicitamente chamada por Putin de “de natureza estratégica” (reporte da Interfax).
Do lado chinês, Xi Jinping enfatizou que China e Rússia demonstram “determinazione nella difesa della giustizia internazionale” e que as relações bilaterais entram numa “nova fase de desenvolvimento”, com a necessidade de aprofundar a interação estratégica entre os dois Estados. Essa retórica reforça um eixo de influência que, para observadores de relações internacionais, funciona como um alicerce Sólido — e ao mesmo tempo recalibra as linhas de força na tessitura global.
O contexto sul terreno, entretanto, segue marcado por violência e vítimas civis. Autoridades locais favoráveis a Moscou, citadas pela Interfax, reportaram três civis mortos em bombardeios atribuídos às forças de Kiev em áreas sob controle russo. Entre as vítimas estão um homem e uma mulher atingidos por um drone numa van na região de Lugansk, distrito de Kremennaya, e uma idosa de 88 anos morta em ataque de artilharia ucraniana em Golaya Pristan, na região de Kherson.
No que concerne às delegações, a comissão russa é encabeçada pelo almirante Igor Kostyukov, responsável pela inteligência militar. A equipe americana inclui figuras do círculo próximo a Donald Trump, como Jared Kushner, e o investidor Steve Witkoff, segundo as comunicações oficiais. A representação ucraniana integra, além de Rustem Umerov, o chefe da inteligência Kyrylo Budanov e o chefe de estado‑maior Andrii Hnatov.
Como analista de geopolítica, vejo nesses episódios um movimento de vários níveis. As negociações em Abu Dhabi são uma tentativa de criar canais de descompressão num teatro conflituoso; simultaneamente, a videoconferência Putin–Xi reafirma um eixo cuja robustez energética e diplomática serve tanto à dissuasão quanto à projeção de uma alternativa às instituições ocidentais. No xadrez estratégico, trata‑se de deslocar peças para consolidar posições enquanto as frentes seguem hostis.
O sucesso prático desses encontros dependerá de convergências técnicas — segurança, garantias, trocas territoriais ou administrativas — e, sobretudo, de uma vontade política capaz de transformar acordos diplomáticos em alicerces estáveis. Até lá, a tectônica de poder continuará a redesenhar fronteiras invisíveis e a testar a resistência dos canais formais de diálogo.





















