Abu Dhabi foi palco de um segundo ciclo de consultas trilaterais entre Rússia, Ucrânia e os EUA, cuja conclusão trouxe mais clareza tática que uma solução imediata não está ao alcance. Fontes russas próximas ao processo traçaram um cenário “favorável” em que um eventual acordo de paz exigiria pelo menos seis semanas — prazo mínimo, e ainda assim otimista, para transpor as complexas camadas de divergências.
Na avaliação compartilhada a agências internacionais, o caminho até um pacto é um trabalho “complexo, multilayer e por fases”, onde a conjugação de vontade política e a capacidade de superar pontos de ruptura definirá a duração do ciclo. Em linguagem de diplomacia como arquitetura do Estado, trata-se de reconstruir alicerces frágeis: só com plena disponibilidade das partes e mecanismos rápidos de conciliação seria viável fechar o processo em não menos de um mês e meio; caso contrário, a tensão temporal se alongará.
O encontro em Abu Dhabi terminou sem uma data definida para o próximo round. Esse compasso reflete a natureza do tabuleiro: avanços calibrados em discussões multilaterais, onde cada movimento é contabilizado não apenas pela letra do acordo, mas pela preservação dos equilíbrios regionais e globais.
Enquanto as negociações prosseguem, incidentes violentos e golpes de influência alteram o cenário. Nesta manhã, o general Vladimir Alekseyev, vice-chefe da inteligência militar e figura de relevo do Estado-Maior russo, foi atingido por disparos numa área residencial em Moscou e levado em caráter de urgência a um hospital. O Comitê Investigativo russo relatou que um indivíduo não identificado abriu fogo em um edifício na avenida Volokolamskoe antes de fugir. Fontes locais citadas pela agência RIA Novosti confirmaram o ocorrido e o transporte da vítima ao hospital.
No mesmo compasso, a cidade de Belgorod, próxima à fronteira ucraniana, sofreu um ataque noturno dirigido a infraestruturas energéticas. O governador do oblast, Vjaceslav Gladko, informou que as operações de recuperação continuavam na madrugada e que amplas áreas permaneciam sem eletricidade e aquecimento. O prefeito Valentin Demidov classificou o episódio como um “massivo ataque de mísseis” desde território ucraniano. Não há registro de vítimas, mas os danos às infraestruturas críticas agravam a vulnerabilidade civil e acentuam a pressão política sobre Moscou.
No tabuleiro econômico-diplomático, o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, advertiu que novas sanções dependerão do desfecho das conversações de paz. Em audiência no Senado, segundo reportagem da Reuters, Bessent afirmou que poderá considerar medidas contra a chamada “fleet shadow” russa — uma rede de embarcações que contornam restrições — um passo que a administração anterior de Donald Trump ainda não havia implementado desde seu retorno em janeiro de 2025. Ele também apontou que sanções direcionadas a grandes empresas petrolíferas, como Rosneft e Lukoil, contribuíram para levar a Rússia à mesa de negociações.
Questionado sobre o papel de interlocutores não oficiais, Bessent indicou acreditar que Jared Kushner tem atuado como um enviado especial e ponto de contato informal nos diálogos com Moscou, ilustrando como canais paralelos e atores de influência privada têm sido integrados à diplomacia pública para mover peças difíceis no tabuleiro.
Em suma, o panorama atual exibe uma tessitura de pressão militar localizada, vulnerabilidade interna e manobras econômicas pensadas como alavancas de negociação. O cronograma de seis semanas, anunciado por fontes russas como horizonte mínimo, deve ser lido como um prognóstico cauteloso: um movimento possível, porém condicionado a um alinhamento de interesses e garantias que hoje ainda parecem frágeis. No xadrez da paz, cada peça deslocada — sanção, ataque, atentado, canal de mediação — redesenha fronteiras invisíveis e testa a resiliência dos alicerces diplomáticos.
Marco Severini — Espresso Italia






















