Em entrevista ao general Nicola Cristadoro, autor de um estudo incisivo sobre operações de influência, examinei os contornos contemporâneos daquilo que ele denomina guerra cognitiva russa. Cristadoro, especialista em inteligência militar, constrói uma narrativa que liga práticas históricas — da época czarista, passando pelas «misure attive» soviéticas — às técnicas digitais de hoje.
O título do paper, segundo o autor, é sintomático: “Quando o urso se disfarça de serpente”. A imagem não é mera retórica. O urso remete ao símbolo da Rússia; a serpente, à duplicidade e à sedução das narrativas enganadoras. Como me explicou Cristadoro, a essência da guerra cognitiva é manipular percepções — com mensagens que não precisam ser verdadeiras para serem eficazes — e corroer a capacidade de decidir coletivamente.
Há um fio vermelho que liga o passado e o presente. Em termos pragmáticos, poucas coisas mudaram na intenção: desde o czarismo, passando pelo período soviético, Moscou recorreu a técnicas de persuasão institucional para controlar populações e influenciar ambientes externos. O que mudou é a escala e a velocidade. As antigas «misure attive» do KGB — operações clandestinas destinadas a desinformar, dividir e desestabilizar adversários — ganharam novas ferramentas. As redes sociais, os algoritmos e a inteligência artificial amplificam mensagens, segmentam públicos e automatizam operações de influência.
Cristadoro descreve um espectro que integra propaganda, sabotagem, infiltração narrativa e até ações paramilitares: uma moderna guerra híbrida cujo objectivo estratégico é fragmentar a confiança social e institucional. A estratégia, no dizer do general, visa tanto corroer a resiliência interna dos Estados da NATO quanto criar fissuras no próprio corpo da Aliança. Em linguagem de geopolítica: um movimento que procura redesenhar fronteiras invisíveis, mexendo nos alicerces frágeis da diplomacia coletiva.
No plano tecnológico, a emergência da inteligência artificial e de conteúdos sintéticos (deepfakes, vozes clonadas, microtargeting) altera o equilíbrio. Não se trata apenas de produzir mentiras: trata-se de arquitetar ecossistemas comunicacionais em que a dúvida sistemática se torna arma. Automatização e capacidade de escala permitem testes, refinamentos e ataques persistentes contra processos de formação de opinião.
Por outro lado, há continuidade tática. As operações de influência seguem princípios clássicos: infiltração de narrativas, criação de canais proxies, apoio logístico a atores não-estatais e campanhas de deslegitimação de instituições. A novidade é o ineditismo da velocidade e a densidade de pontos de contato com o público — um verdadeiro redesenho do tabuleiro, onde movimentos aparentemente pequenos têm efeitos acumulativos.
As recomendações do general Cristadoro são, em tom pragmático e estratégico, claras: é indispensável reforçar defesas cognitivas — fortalecer a literacia mediática, coordenar respostas NATO-Europa, elevar a resiliência das infraestruturas críticas e desenvolver capacidades próprias de detecção de operações sintéticas. Em termos de política prática, sugere um duplo caminho: medidas defensivas tradicionais (inteligência, segurança cibernética, proteção de infraestruturas) e um trabalho de longo prazo na construção de narrativas sólidas e credíveis.
Como analista, vejo esse quadro como um problema de arquitetura estratégica. Não bastam contramedidas pontuais; é preciso redesenhar a estrutura do espaço informativo e consolidar alianças culturais e institucionais. No tabuleiro internacional, cada peça informativa deslocada pela adversidade russa altera o equilíbrio — por isso a resposta europeia deve ser simultaneamente técnica, diplomática e educativa.
Em suma: a guerra cognitiva russa não é um mero capítulo técnico da propaganda; é uma operação geopolítica que busca, com instrumentos novos e velhos, minar a capacidade de ação coletiva do Ocidente. Como num jogo de xadrez em que o adversário aposta em pequenos avanços posicionais, a defesa exige paciência estratégica, coordenação e, sobretudo, a capacidade de recuperar o monopólio da veracidade e da confiança.
General Nicola Cristadoro é autor do estudo e mantém que o reconhecimento deste quadro é o primeiro movimento decisivo para reagir. A Europa, acrescento, deve construir alicerces mais robustos — ou arrisca que as fronteiras do poder sejam redesenhadas, não por soldados nas ruas, mas por narrativas que corroem as fundações da ordem coletiva.






















