Marco Severini – Em um movimento que lembra um lance decisivo em um tabuleiro de xadrez geopolítico, os líderes europeus emitiram uma declaração conjunta reafirmando que a Groenlândia pertence ao seu povo, integra o âmbito da NATO e que seus **fronteiras são invioláveis**. A nota, assinada por chefes de Estado e de governo — entre eles Giorgia Meloni, Emmanuel Macron, Friedrich Merz, Donald Tusk, Pedro Sánchez, Keir Starmer e a primeira-ministra dinamarquesa Mette Frederiksen — busca consolidar um alicerce comum diante das investidas externas sobre o Ártico.
Na declaração, os signatários sublinham que a segurança do Ártico é uma prioridade europeia e um elemento essencial para a estabilidade internacional e a segurança transatlântica. O documento recorda que a região artica figura entre as prioridades da NATO e que os aliados europeus têm reforçado presença, atividades e investimentos para prevenir ações hostis. Referem ainda o tratado de defesa de 1951 entre o Reino da Dinamarca e os Estados Unidos, elemento histórico que ancora a cooperação transatlântica na região.
Ao mesmo tempo, relatos do The Economist colocam sobre a mesa a possibilidade de um movimento paralelo por parte do ex-presidente norte-americano Donald Trump: segundo a revista, a administração Trump estaria trabalhando em um «acordo de associação» com a Groenlândia que, de fato, excluiria a Dinamarca do processo. Tal hipótese redesenha, na prática, uma fronteira de influência invisível — um redesenho por meio de instrumentos jurídicos e acordos bilaterais, e não por linhas no mapa.
O próprio Trump tem reiterado que a ilha seria necessária “por motivos de segurança”. A insistência americana reacende tensões diplomáticas com Copenhague: a primeira-ministra Mette Frederiksen respondeu com firmeza, pedindo o fim das ameaças e lembrando que decisões sobre a ilha cabem ao Reino da Dinamarca e ao povo groenlandês.
O incidente ganhou ainda uma dimensão simbólica quando Katie Miller, esposa de um dos conselheiros de segurança nacional de Trump, publicou imagens da Groenlândia acompanhadas por uma bandeira americana e a legenda “Em breve”. A ação, embora simbólica, serve como um lembrete da disputa de narrativas sobre a ilha — e da importância da percepção pública no cálculo estratégico.
Como analista, enxergo este episódio como uma combinação de tectônica de poder e de jogo posicional: enquanto a União Europeia e seus líderes consolidam uma posição coletiva e jurídica, existe o risco de movimentos bilaterais que tentem isolar atores europeus tradicionais do processo decisório no Ártico. A defesa da soberania e da integridade territorial, invocada na nota, possui tanto valor jurídico quanto estratégico; é um alicerce que a Europa tenta fortalecer para evitar o fracionamento das relações transatlânticas.
Em suma, a disputa sobre a Groenlândia não é apenas sobre território, mas sobre controle de acessos, bases e influências em uma região cujo valor geoestratégico cresce com as mudanças climáticas e a projeção militar. O lance decisivo, por enquanto, permanece nas mãos das capitais: será jogado nas mesas dos fóruns multilaterais e nos corredores das negociações bilaterais, e pode redefinir, lentamente, o equilíbrio de poder no Ártico.































