Groenlândia volta a redesenhar um trecho sensível do tabuleiro geopolítico. Em Bruxelas, a União Europeia está pronta para reativar contramedidas comerciais no valor de €93 bilhões contra os EUA, em resposta à imposição anunciada de tarifas de 10% a oito países europeus que enviaram tropas ou forças à ilha autônoma. O movimento de retaliação pode entrar em vigor já em 6 de fevereiro, data-limite para o levantamento da suspensão das sanções decididas em agosto passado.
O anúncio decorre de uma reunião dos embaixadores dos 27 Estados-membros (Coreper), na qual se deu o aval à eventual reposição das medidas — medidas que, segundo fontes comunitárias, não requerem novo voto legislativo: basta que a suspensão expire. É uma jogada de tabuleiro que mantém as peças no lugar enquanto se observa o adversário.
A administração norte-americana, sob o comando de Donald Trump, comunicou tarifas iniciais de 10% sobre produtos de determinados países europeus, com menção à possibilidade de aumento para 25% a partir de 1º de junho, caso a escalada persista. Em paralelo, a Casa Branca tem usado a pressão tarifária como instrumento de barganha — um modus operandi conhecido do atual inquilino da Casa Branca, que frequentemente busca converter um ataque econômico em plataforma de negociação.
Do lado europeu, líderes procuraram calibrar respostas. A primeira-ministra italiana Giorgia Meloni criticou a ameaça de aumento de tarifas como “um erro” que poderia prejudicar as relações transatlânticas. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, afirmou que “a Europa permanecerá unida, coordenada e empenhada em defender a sua soberania”, sublinhando que Bruxelas está preparada para proteger seus interesses e seu mercado comum.
Uma hipótese que se desvanece, segundo fontes diplomáticas presentes no término do Coreper, é a ativação do chamado instrumento anti-coerção — a famosa “bazuca anti-coerção” proposta pelo presidente francês Emmanuel Macron. Fontes indicam que, por ora, não está prevista a adoção de tal mecanismo contra os EUA nem de outros instrumentos comerciais extraordinários. Em termos estratégicos, trata-se de manter os alicerces da diplomacia intactos, evitando uma escalada que poderia abrir fraturas duradouras no eixo transatlântico.
Na prática, as medidas de equilíbrios anunciadas pela UE no verão passado permanecem suspensas até 6 de fevereiro. Caso nada seja feito para renovar a suspensão, as tarifas reverterão automaticamente, reativando um pacote de sanções correspondente a aproximadamente €93 bilhões.
Enquanto a tensão se acumula, a leitura estratégica sugere duas possibilidades: ou estamos diante de um movimento coercitivo destinado a forçar concessões no teatro do Atlântico Norte, ou assistimos à abertura de uma negociação sob regras duras — o clássico gesto inicial agressivo para obter contrapartidas. No xadrez das grandes potências, cada lance econômico é também um teste de resistência política e alianças.
Os próximos dias serão decisivos. Se Trump recuar, o impasse pode ser resolvido nas margens de negociações; se mantiver a escalada, a UE dispõe de um arsenal jurídico-comercial pronto para ser acionado. Seja qual for o desfecho, a disputa pela Groenlândia já desenhou uma nova linha de fricção na tectônica de poder entre Europa e Estados Unidos — e lembra que, mesmo em tempos de interdependência, os instrumentos do poder duro continuam a ser peças centrais do tabuleiro.






















