O episódio em torno da possibilidade de aplicação de tarifas punitivas por parte dos EUA contra Estados da UE que enviaram tropas à Groenlândia parece ter sido contido. Com o recuo público do presidente Trump, a União Europeia opta por arquivar, por ora, o mecanismo de medidas anti-coerção — a chamada “bazuca” — que havia sido preparada como sinalizador de dissuasão.
Trata-se de um instrumento concebido mais como um elemento de dissuasão do que de execução imediata: sua ativação implicaria procedimentos longos e complexos, mas teria forte impacto político se utilizada. Um alto funcionário da UE afirmou que ‘não vê a hipótese de ativação’, depois da mudança de tom em Washington.
A resposta comunitária, no entanto, não era unânime. Países bálticos, preocupados em preservar o tradicional guarda-chuva de segurança americano, manifestaram oposição explícita a uma escalada, o que já colocava o instrumento em zona de incerteza mesmo antes do aceno de Washington para recuar. Assim, a bazuca foi devolvida ao estojo estratégico, pronta para ser retirada novamente caso o cenário volte a deteriorar-se.
Paralelamente, outra contramedida poderosa — os controdazis no valor de 93 mil milhões de euros, aprovados e depois suspensos no contexto das tensões comerciais com os EUA — também permanece congelada graças ao acordo de julho entre a presidente da Comissão Europeia e a administração americana, fechado num encontro no resort de Turnberry. A suspensão expira no início de fevereiro e precisa ser prorrogada para impedir que as tarifas europeias sobre itens como Harley-Davidson e jeans entrem em vigor automaticamente.
Se Trump tivesse mantido a ameaça de tarifas punitivas contra Estados membros, teria sido politicamente difícil para a UE impedir a reativação das contromedidas, dada a suspensão temporária. Mas com o recuo de Washington, a tendência é pela manutenção do statu quo comercial: a Comissão Europeia deverá respeitar o acordo se a situação permanecer inalterada, conforme indicou a fonte comunitária.
Convém, porém, não romantizar a estabilidade: as relações transatlânticas hoje mostram uma volatilidade estrutural que torna qualquer acordo frágil — os alicerces da diplomacia bilateral revelam fendas que se abrem com sismos políticos. Em termos analíticos, a lição é clara: manter instrumentos de pressão no tabuleiro é parte da arquitetura da segurança econômica. Eles ficam à vista para moldar comportamentos, mesmo quando não são efetivamente jogados.
Após as ameaças iniciais, a UE reagiu com rapidez, calma e firmeza — uma postura calculada que funcionou. Não obstante, a resposta dos mercados internacionais e a proximidade das eleições internas nos EUA parecem ter sido fatores que contribuíram para o recuo americano. Continuo a observar o campo estratégico: as peças permanecerão em posição, prontas para um novo movimento decisivo no tabuleiro.






















