Por Marco Severini — Em um movimento que reposiciona a Groenlândia no centro da tectônica geopolítica do Ártico, a administração do presidente Donald Trump intensificou esforços para estreitar laços diretos com a ilha — território autônomo do Reino da Dinamarca — numa estratégia que mescla interesses militares e econômicos.
Na prática, Trump nomeou Jeff Landry, governador da Luisiana, como enviado especial para a Groenlândia, e reiterou publicamente que os Estados Unidos “absolutamente precisam” daquele território para a defesa nacional. A proposta em análise, segundo relatou a revista The Economist, não seria uma anexação formal, mas um acordo de associação que exclua a Dinamarca, criando uma ponte política e militar direta entre Washington e Nuuk. Tal acordo permitiria aos EUA maior liberdade para posicionar tropas e expandir infraestruturas estratégicas.
Em resposta, um bloco de líderes europeus — incluindo o presidente francês Emmanuel Macron, o chanceler alemão Friedrich Merz, a primeira-ministra italiana Giorgia Meloni, o primeiro-ministro da Polônia Donald Tusk, o premier espanhol Pedro Sánchez, o primeiro-ministro britânico Keir Starmer e a primeira-ministra dinamarquesa Mette Frederiksen — emitiu uma declaração conjunta que reitera de maneira firme a inviolabilidade da soberania e da integridade territorial.
“A segurança do Ártico é prioridade para a Europa e para a segurança transatlântica”, afirmam os chefes de governo, lembrando o papel da NATO e o acordo de defesa entre o Reino da Dinamarca e os Estados Unidos de 1951. A nota sublinha que a Groenlândia pertence ao seu povo e que quaisquer decisões sobre o seu futuro devem competir exclusivamente à Dinamarca e à própria Groenlândia, em conformidade com a Carta das Nações Unidas e os princípios do direito internacional.
O interesse renovado de Washington na ilha tem motivações objetivas. A Groenlândia controla acessos relevantes ao Ártico, região de crescente concorrência entre Estados Unidos, Rússia e China. Com o recuo das geleiras, emergem rotas comerciais e reservas de recursos — como terras raras e hidrocarbonetos — que revestem a ilha de importância estratégica adicional. Em relatos públicos, a administração Trump apontou a presença de embarcações russas e chinesas nas imediações como justificativa para reforçar a presença norte-americana.
Do ponto de vista estratégico, estamos diante de um movimento decisivo no tabuleiro do poder: mais do que um gesto diplomático, trata-se de tentar redesenhar, com acordos paralelos, as linhas de influência no Ártico, testando os alicerces da diplomacia atlântica. Para os europeus, a resposta coletiva busca fechar brechas legais e políticas que poderiam levar a reconfigurações unilaterais.
Washington também ensaia medidas para conquistar apoio local, oferecendo incentivos à população groenlandesa. Esse componente interno é crucial: toda mudança de estatuto dependerá, em última instância, da vontade do povo groenlandês e dos termos negociados com a Dinamarca.
Em suma, a questão da Groenlândia voltou ao centro como exemplo claro de como a arquitetura clássica das alianças está sendo testada por interesses estratégicos emergentes. A resposta europeia — firme, coordenada e legalista — pretende manter o jogo dentro das regras do Direito Internacional e da solidariedade transatlântica.
Marco Severini — La Via Italia































