Por Marco Severini — Num movimento que reconfigura o tabuleiro geopolítico do Ártico, a última National Security Strategy assinada por Donald Trump em dezembro de 2025 não menciona explicitamente a Groenlândia nem o Ártico. Contudo, analisando o texto em sua totalidade, fica claro que esses espaços estão integrados — por via tácita — às prioridades que o documento coloca no centro da ação americana: soberania, controle de cadeias críticas e ocupação de posições estratégicas.
Do ponto de vista do xadrez estratégico, não se trata de uma omissão acidental, mas de um reposicionamento de fichas: ao abstrair o Ártico dentro de um quadro mais amplo e ideológico, a administração pretende preservar a liberdade operacional dos Estados Unidos frente à crescente competição global com Rússia e China. A leitura que proponho é a de uma estratégia de desenho hemisférico — onde o hemisfério ocidental é percebido como um espaço a ser defendido de influências externas — e onde a Groenlândia assume papel de nó crítico entre o Atlântico Norte e o Polo Norte.
Nos últimos anos, Moscou reforçou a militarização do extremo norte, enquanto Pequim procura inserir-se na governança ártica por meio de investimentos, parcerias científicas e iniciativas logísticas. Essa dupla pressão transforma a ilha groenlandesa não apenas em uma questão de soberania de cúpula, mas em um ponto de vigilância e projeção de poder: base para monitoramento, logística e, potencialmente, infraestrutura de resposta rápida.
O professor Alberto Pagani, analista de inteligência, alerta para o risco de que uma tentativa de controle unilateral fragilize a posição americana a longo prazo. A lição, tanto histórica quanto estratégica, é que territórios fronteiriços funcionam melhor como alicerces de coalizões do que como fortalezas isoladas. Em termos práticos, isso aponta para a necessidade de fortalecer a NATO e as parcerias com os aliados árticos — Canadá, Noruega, Dinamarca (em particular no que toca à Groenlândia) — em vez de apostar exclusivamente em iniciativas bilaterais e de autonomia absoluta.
A diferença de enfoque entre a administração de 2022 e a de 2025 é clara: enquanto a primeira falava em “manter um Ártico pacífico” conciliando segurança, clima e diplomacia, a nova estratégia desloca a ênfase para a liberdade de ação americana. É a sequência lógica de um discurso America First aplicado ao extremo norte: priorizar o acesso irrestrito a posições estratégicas e proteger cadeias de abastecimento críticas sem aceitar constrangimentos multilaterais.
Tal perspectiva tem implicações diretas para o relacionamento transatlântico. A caracterização da Europa como uma região de suposta “decadência” produz uma mudança na hierarquia de confiança. Quando aliados tradicionais são vistos como frágeis, cresce o impulso de agir de maneira mais bilateral e mais proprietária. Essa deslocação tensiona a arquitetura da NATO, porque desafia a lógica de segurança coletiva em favor de soluções de instrumentalização unilateral.
Na prática, o que está em jogo no Ártico é tanto material quanto simbólico: rotas marítimas emergentes, recursos energéticos e minerais, capacidade de vigilância e projeção militar, e o controle das narrativas diplomáticas que regerão a governança regional. A escolha estratégica que se avizinha colocará à prova os alicerces da diplomacia ocidental: reforçar alianças e governança partilhada, ou privilegiar uma liberdade de ação que pode acelerar a fragmentação das instituições de segurança coletivas.
Se o Ártico é um novo campo de confronto entre potências, a Groenlândia aparece como uma peça central do tabuleiro — não por acaso, objeto de sondagens e de interesse renovado. A jogada americana decisiva, no entanto, será medida não apenas pela ocupação física de territórios, mas pela capacidade de construir uma coalizão resiliente que traduza a vantagem estratégica em estabilidade duradoura.






















