Por Marco Severini — Em um movimento que revela um redesenho sutil, porém significativo, das linhas de influência no Ártico, o Reino Unido tem aberto conversas com países da União Europeia sobre a possibilidade de desdobrar forças na Groenlândia. Fontes do The Telegraph e da imprensa europeia relatam que, em estágio inicial, os planos envolvem a presença de soldados, navios de guerra e aviões britânicos na ilha — uma iniciativa concebida para atenuar as inquietações de Donald Trump e dissuadir eventuais ambições de controle.
Nos últimos dias, representantes britânicos reuniram-se com homólogos de outros Estados europeus para iniciar os preparativos práticos. A coordenação, segundo o jornal Bild, passou pelo chamado E3 — Alemanha, França e o próprio Reino Unido — que alinhou entendimentos sobre os próximos passos a serem adotados em relação à situação groenlandesa.
Em termos formais, Berlim tem sido cautelosa. O ministro das Relações Exteriores alemão, Johann Wadephul, reiterou em entrevista que cabe à Groenlândia e à Dinamarca decidir sobre questões de soberania e território, ao mesmo tempo em que reconheceu a crescente relevância estratégica da região: «A região ártica adquiriu uma nova importância política e de segurança. Isso tende a aumentar, pois Rússia e China têm interesses que se chocam com os nossos», disse Wadephul.
Wadephul viajou a Reykjavik para dialogar com a ministra das Relações Exteriores da Islândia, Þórdís Kolbrún Reykfjörð Gylfadóttir, num gesto que sublinha a necessidade europeia de coordenar posições no Atlântico Norte. Conforme apurado, a agenda do ministro incluirá também uma visita a Washington para conversas com o senador americano Marco Rubio, numa tentativa de alinhar percepções transatlânticas sobre estabilidade no Ártico.
Do ponto de vista estratégico, trata-se de um movimento de prevenção. A presença militar europeia, se concretizada, teria dupla finalidade: sinalizar que a ilha é objeto de atenção coletiva e criar uma barreira tangível a iniciativas externas — notadamente os avanços russos e chineses na região. Em linguagem de tabuleiro, é um movimento que procura controlar casas-chave antes que um adversário execute um lance decisivo.
Há, naturalmente, limitações jurídicas e diplomáticas. A Groenlândia, território autônomo sob a coroa dinamarquesa, detém competência para deliberar sobre sua política externa em vários temas. Assim, qualquer presença militar estrangeira dependeria de acordo explícito entre Nuuk e Copenhague, e, em última instância, de um delicado trabalho de persuasão política.
Na retórica pública, os governos europeus evitam exageros. Mas nos bastidores, o movimento evidencia uma percepção compartilhada: os alicerces da diplomacia no Ártico são frágeis e sujeitos a choques de interesses, e os Estados europeus se movem para consolidar posições antes que a tectônica de poder regional se recomponha em desfavor deles.
Esta iniciativa, por ora embrionária, é simbólica de uma nova arquitetura de prevenção — um xadrez estratégico em que peças são deslocadas para bloquear riscos e preservar espaços de influência. Resta saber se o timing político será suficiente para convencer Washington a recuar de posturas que, naquele teatro, podem ser interpretadas como tentativas de anexação.





















