No centro da tensão provocada pelas declarações do presidente norte-americano, Donald Trump, que sugeriu publicamente a intenção de adquirir a Groenlândia “pelos caminhos bons ou pelos maus”, os líderes dos cinco partidos representados no parlamento local, o Inatsisartut, assinaram uma nota conjunta reclamando respeito e autonomia.
Na declaração, lida com a gravidade de quem mede cada palavra, os signatários — o primeiro-ministro groenlandês Jens-Frederik Nielsen e os líderes Pele Broberg, Múte B. Egede, Aleqa Hammond e Aqqalu C. Jerimiassen — afirmam: “Não queremos ser americanos, não queremos ser dinamarqueses, queremos ser groenlandeses”.
Os dirigentes reforçam que “o futuro da Groenlândia deve ser decidido pelo povo groenlandês” e recordam que o trabalho sobre esse futuro se dá “em diálogo com o povo groenlandês e com base nas leis internacionais”. A mensagem é direta: nenhum outro país tem direito de intervir nesse processo.
Donald Trump reiterou sua disposição de garantir a ilha aos Estados Unidos, justificando que pretende impedir eventuais avanços da Rússia ou da China na região, e dizendo que empregaria meios “suaves” ou “duros” — sem maiores especificações. A hipótese suscitou reações diplomáticas imediatas: a primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, advertiu que uma aquisição norte-americana poderia colocar em risco a própria coesão da NATO.
Na quinta-feira, representantes da Dinamarca, da Groenlândia e dos Estados Unidos reuniram-se para discutir o episódio. No quadro institucional, a nota dos líderes groenlandeses reafirma que as decisões sobre o arquipélago obedecem às normativas do Reino da Dinamarca e ao direito internacional, sendo a autodeterminação e a autonomia os alicerces invioláveis.
Além do peso simbólico, a situação tem um reflexo nas percepções públicas: uma pesquisa do instituto Voxmeter, realizada entre 6 e 9 de janeiro com 1.000 participantes, mostra que quase quatro em cada dez dinamarqueses (cerca de 39%) consideram plausível que os Estados Unidos possam avançar para uma intervenção na Groenlândia durante a presidência de Trump. Entre eles, 10% acreditam firmemente que as palavras podem se transformar em ações, enquanto outros 28,3% consideram a hipótese plausível. Em contrapartida, 28,6% rejeitam a possibilidade.
Como analista que observa a cena internacional como um tabuleiro, é necessário ver este episódio não como um gesto isolado, mas como um movimento na arquitetura de poder do Ártico. A Groenlândia, com seus cerca de 57 mil habitantes, ocupa uma posição estratégica — humana e geográfica — que expõe o frágil equilíbrio entre soberania, interesses estratégicos e discursos de potência.
O apelo dos líderes groenlandeses é, em essência, uma reivindicação de autodeterminação e de respeito aos processos internos: uma afirmação de que as decisões sobre recursos, bases e alianças devem emergir das instituições e da vontade dos groenlandeses, não de imposições externas. Em termos de diplomacia prática, trata-se de uma tentativa de desenhar, sobre o mapa, fronteiras políticas invisíveis, mas determinantes para a estabilidade regional.






















